Um espantalho chamado antipetismo

Um espantalho chamado antipetismo

Por: Giovanny Simon

Os comunistas precisam ter independência ideológica. Para cumprirem o seu papel revolucionário, os comunistas precisam colocar sob suspeita e sob escrutínio teórico-político severo, as categorias de análise tipicamente burguesas. Não há como fazer uma verdadeira luta proletária-popular utilizando como centro de análise uma categoria de viés liberal, burguesa, e até, diria, neoconservadora, como é o caso do termo antipetismo. Consciente ou inconscientemente incorporado pela militância de esquerda, tem sido muito usada por “trabalhistas” ou por comunistas honestos que temem um revigoramento de Bolsonaro decorrendo de uma polarização eleitoral com Lula.

O termo antipetismo é usado amplamente para designar uma ideologia cujo traço fundamental não é a sua orientação de esquerda ou de direta, mas sua rejeição visceral ao Partido dos Trabalhadores, o PT.

Essa análise se tornou novamente visível no desenrolar do discurso de Lula, depois da anulação de seus julgamentos que haviam retirado os seus direitos políticos. Novamente elegível, Lula volta a incomodar tanto a direita tradicional (erroneamente chamada de “centrão”) e certos postulantes a liderarem a oposição à Bolsonaro.

Acredito que essa é uma falsa categoria analítica que, senão rejeitada, deve ser usada com muita cautela.

Ideologias são, segundo Marx em sua Contribuição para a Crítica da Economia Política, veículos de resolução dos conflitos sociais:

Quando se consideram tais transformações, convém distinguir sempre a transformação material das condições econômicas de produção – que podem ser verificadas fielmente com ajuda das ciências físicas e naturais – e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em resumo, as formas ideológicas sob as quais os homens adquirem consciência desse conflito e o levam até o fim.

De acordo com György Lukács ponto de partida de uma ideologia é sempre a pergunta “o que fazer?”. Elas podem ideologias podem ser falsas ou verdadeiras (no sentido de refletir a realidade), mas o que importa para a ideologia é a sua função social e se elas são capazes de traduzir interesses conflitantes entre as classes, frações de classes e segmentos sociais em luta. A ideologia é um veículo que só se realiza enquanto é movido. A ideologia é sempre um veículo de mudança. Entendo mudança aqui num sentido muito amplo, porque engloba a função de uma ideologia conservadora que, quando o status quo é ameaçado, é mobilizada para conservar a ordem.

As ideologias se propõem a serem universalistas. Mas não é porque elas tenham essa pretensão é que elas sejam. A única ideologia efetivamente universal é a ideologia do proletariado, que busca a sua auto-extinção enquanto classe simultaneamente a abolição de todas as classes e da exploração do homem pelo homem. Isso porque a universalidade da ideologia proletária tem base concreta.

A ideologia burguesa clássica do iluminismo tinha pretensões universalistas, até míticas em alguns casos, mas se mostrou como uma falsa universalidade, ao substituir o domínio de uma classe pela outra e, em alguns casos, conscientemente conservou velhas tradições senhoriais como a escravidão, o colonialismo e o patriarcado.

A meu ver, supondo que uma ideologia antipetista exista, ela deve ser analisada primariamente como uma expressão ideal de conflitos de classe concretos. Não vou dissertar muito sobre a constituição das classes dominantes no Brasil, mas me limitar a dizer que nossas elites são profundamente conservadoras, anti-povo, carentes de projeções nacionais autônomas, são portadoras de uma mentalidade tacanha, uma cultura escravista e senhorial que se reciclou ao longo dos anos na forma de um profundo ódio contra a classe trabalhadora e o povo pobre. Isso no plano ídeo-cultural. No plano econômico já é bem conhecida a lumpen-burguesia agro-exportadora, extrativista, entreguista e que prefere vender recursos primários e se renova tecnologicamente apenas em função dos ciclos de renovação do capital e da nossa posição na divisão internacional do trabalho.

A ideologia do tripé das classes dominantes (latifúndio, imperialismo e monopólios) é, portanto, profundamente conservadora, reacionária, proto-fascista, racista, anti-nacional, anti-povo e também anti-comunista.  Vale dizer que ela se expressa falsamente através de um nacionalismo, tradicionalismo e um moralismo (anti-corrupção).

Como a ideologia de uma época é a ideologia das classes dominantes, ela se expressa em indivíduos e grupos sociais de classes antagônicas na forma de uma falsa consciência. Tal ideologia busca se generalizar e ganhar parcelas da massa cuja vida objetiva está em desacordo com seus princípios morais e culturais.

Na minha perspectiva, o dito antipetismo, não passa de um subproduto dessa ideologia principal do bloco dominante. E se expressa também como falsa consciência em certas camadas da classe trabalhadora.

Por isso, tenho a impressão que essa categoria tem sido usada de forma oportunista por alguns, e desavisada por outros. Justamente porque dizer que o “antipetismo ainda é muito forte”, ou que “Lula fortalece Bolsonaro” parece ser algo muito tolo do ponto de vista marxista. Ué? Segundo esse raciocínio, quer dizer que a ideologia das classes dominantes é uma falsa consciência, mas o antipetismo, não é?

Eu acho muito difícil de acreditar que o antipetismo tenha alguma característica autônoma que mobilize seus adeptos para além de uma indisposição com certas figuras. Indisposição com certas pessoas ou partidos não é suficiente para configurar uma ideologia. Em momentos políticos de crise, os programas econômico e político contam muito mais do que aptidões pessoais.

Pode ser que um dos elementos de maior peso daquilo que chamamos de antipetismo seja a pecha de corruptos que o aparato ideológico das classes dominantes conseguiu imputar ao PT, mas isso à custa de uma hipocrisia sem tamanho dos seus.

Ora, a burguesia brasileira não é contra a corrupção. Ela apenas usou a corrupção para arruinar a reputação de um partido e de alguns de seus quadros com base em duas gramas de verdade e uma tonelada de mentiras!

Diante disso, aqueles que partem do “antipetismo” como um fato dado propõe a simplesmente aceitar a ofensiva ideológica das classes dominantes contra Lula, o mais notório líder operário da nessa história recente (para o bem e para mal) sem fazer oposição a essas mentiras?

Eu sou comunista e ideologicamente estou muito mais à esquerda de Lula e do PT, e sou adepto da ideia de que é possível criticá-los sem, para isso , empregar instrumentos ideológicos da direita.

A naturalização do antipetismo tem dois vieses nocivos principais:

Primeiro, é um movimento político de grande covardia política ideológica por parte da esquerda marxista, pois implica em preferir o combate abstrato à ideologia dominantes (que é muito mais antiga e persistente) do que combater o seu invólucro concreto expresso no “antipetismo”. Esses marxistas preferem o purismo dos seus princípios que não enfrentam ninguém e não se comprometem com nada, do que combater um inimigo concreto tendo que estar na mesma trincheira que os petistas. Do ponto de vista de lideranças não marxistas, o aspecto principal é a sua hipocrisia colossal. O fato de Lula ter dito que é preciso falar com empresários em sua coletiva de imprensa deixou muitos abestalhados. Logo, uma multidão de críticos achando ter descoberto o segredo oculto que Lula repete publicamente há 30 anos, foi acusa-lo de conciliador, reformista, etc. Quando Ciro Gomes, por exemplo, fala algo do tipo, tudo bem. É o PND “Projeto Nacional de Desenvolvimento”. Patético.

Para terminar, defendo que enfrentar as classes dominantes no Brasil significa enfrentar o antipetismo também. Porque, na verdade o antipetismo não existe como ideologia autônoma, apenas como extensão medíocre da ideologia dominante. Para agir corretamente, o marxista precisa analisar sem preconceitos a correlação de forças das classes em luta e o comportamento concreto das suas respectivas agremiações, para que possa traçar uma tática adequada e correspondente à sua estratégia de revolução. Para tal, o espantalho chamado antipetismo apenas diversionismo.

Eu não gosto de usar resultados eleitorais e pesquisas de opinião como argumento para julgar a adesão da massa a um ou outro projeto, mas mesmo por esses indicadores a rejeição de Lula não é tão alta, nem foi apenas o PT, entre os partidos de esquerda, que obteve os piores resultados nas últimas eleições municipais.

A ideologia burguesa em nosso país de capitalismo dependente, dominado pelo imperialismo dos EUA, desde muito tempo trabalha com a ideia de um inimigo interno, a exemplo da doutrina de segurança nacional que ganhou os quartéis por importação estadunidense pós-1959. No passado esses inimigos foram os trabalhistas, por vezes os sindicalistas, agora os petistas, frequentemente todos eles eram e são chamados de comunistas, ainda que não o fossem.

O imperialismo tem um projeto de recolonização para o país que tem o PT como um de seus obstáculos, especialmente depois da derrota da ALCA. Não cabe aos comunistas aderir às infecções ideológicas imperialistas em nome da disputa pela hegemonia do proletariado na luta contra o fascismo. Mesmo que os petistas continuem repetindo os erros que os levaram ao golpe de 2016 e o Brasil ao abismo social presente, repetir as mentiras burguesas só nos afastará das massas e eventualmente dará munição aos nossos próprios algozes.

5 comentários sobre “Um espantalho chamado antipetismo

  1. Excelente. Matéria de muito valor para reflexão neste importante momento político e social que estamos atravessando.

  2. Precisamos de uma narrativa e de um espantalho (palhaço que espanta, mas não mata), ou se uma imagem, um simbolismo antifascista!

    Visto que “nossas elites são profundamente conservadoras, anti-povo, carentes de projeções nacionais autônomas, são portadoras de uma mentalidade tacanha, uma cultura escravista e senhorial que se reciclou ao longo dos anos na forma de um profundo ódio contra a classe trabalhadora e o povo pobre. Isso no plano ídeo-cultural. No plano econômico já é bem conhecida a lumpen-burguesia agro-exportadora, extrativista, entreguista e que prefere vender recursos primários e se renova tecnologicamente apenas em função dos ciclos de renovação do capital e da nossa posição na divisão internacional do trabalho”.

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