Futebol e pandemia

Futebol e pandemia

Por: Vitor Rago

Todo mundo já ouviu pelo menos uma vez na vida que o Brasil é o “país do futebol”. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF), entidade máxima de representação do futebol brasileiro, tem a função de organizar campeonatos e promover eventos esportivos. Abaixo dela, nessa hierarquia, entram as Federações estaduais, que também promovem seus campeonatos. 

Como na política brasileira, quem manda e desmanda no futebol são os homens poderosos velhos e brancos, chamados de “cartolas”. A maior parte deles nem de futebol quer saber. Marco Polo Del Nero e José Maria Marin são exemplos de cartolas ex-presidentes da CBF que não podem sair do Brasil, pelo fato de serem procurados pela Interpol por envolvimento em escândalos de corrupção, nepotismo, fraudes, etc.

Nas Federações a história é parecida. No Rio, por exemplo, a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ) lucra mais que os próprios times de futebol, já que o custo do campeonato é tão elevado para os clubes que eles acabam tendo prejuízo por disputar as partidas. Tira-se de quem precisa – clubes afundados em dívidas, escolinhas e projetos sociais para o fomento ao esporte – para encher o bolso dos senhores (Federações e dirigentes milionários). 

O presidente mais antigo dentre todas as Federações é Zeca Xaud, eleito nos anos 1970 – quando ainda jogava Pelé – para profissionalizar o futebol do estado de Roraima. A verdade é que pouco fez em décadas, como nos mostra o campeonato roraimense de futebol, que é disputado entre 5 times que levam em média 50 torcedores por jogo. 

Na nossa condição de periferia do capitalismo, os grandes times brasileiros não têm a menor chance de se equiparar economicamente aos times europeus. Contudo, conseguem se manter funcionando e, com isso, permitem a “festa” da  CBF e das Federações. Mas, o futebol está inserido numa lógica de mercado. Ou seja, os times que não lucram correm o risco de acabar, e é justamente isso que vem acontecendo. O número de times em atividade no Brasil vem diminuindo. Enquanto a Inglaterra possui mais de 7 mil times e a Alemanha mais de 3 mil, o Brasil possui por volta de 720 equipes. O jornal Lance fez um levantamento onde aponta que de 2009 a 2018 o Brasil perdeu quase 10% dos times de futebol, uma média de mais de quase 7 clubes por ano. 

Com a chegada do Covid-19 no Brasil, os campeonatos de futebol tiveram de parar, e o que se viu foi, em poucas semanas, os clubes menores se desmanchando, vendendo jogadores, perdendo técnicos e restando sem dinheiro algum, ao passo que, a CBF registrou um lucro de 1 bilhão de reais em 2019. O Santo André, por exemplo, era o melhor time do Campeonato Paulista de Futebol e hoje está completamente desfeito sem a menor chance de continuar a disputa da competição. Em meio a pandemia, talvez você pense que nada do que foi colocado até aqui  importa muito, mas, a lógica que atinge os clubes pequenos de futebol se replica em toda a nossa sociedade. 

O vírus não causou nenhuma desigualdade, ele colocou em evidência algo que já estava posto. As diferenças sociais e econômicas são produzidas pelo capitalismo e, em momentos como o que vivemos, a situação se torna insustentável. O povo brasileiro vê seu presidente lavar as mãos em meio a crise econômica, política e sanitária que nos atinge. “E daí? Lamento, quer que eu faça o quê?” Disse Bolsonaro quando questionado sobre o Brasil ter passado a China em número de mortes por Covid-19.

Seja no futebol ou na saúde quem dá regra é o dinheiro. Se a gente não se levantar não sobra espaço para os times pequenos e sobra menos espaço ainda para o pobre no hospital.

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