O dia depois de amanhã, ou um longo e penoso terceiro turno: desafios para a esquerda depois das eleições
Por: Giovanny Simon
Amanhã, 25 de outubro, o Brasil vai às urnas novamente decidir quem assume a Presidência da República: um miliciano apenas comprometido com a continuidade da atividade criminosa da sua família, completamente submetido aos interesses do imperialismo dos EUA e das forças mais reacionárias das classes dominantes no Brasil, os grandes monopólios e o latifúndio financeirizado no chamado agronegócio; ou Lula, representando uma ampla coalizão das forças democráticas e patrióticas do Brasil.
Apesar da histórica mobilização após a derrota no primeiro turno, quando uma enorme comoção tomou conta das massas preocupadas com o avanço do fascismo em nosso país, estamos caminhando para um domingo com as eleições completamente em aberto. De acordo com as pesquisas, não há vencedor provável, uma vez que o empate técnico dentro da margem de erro é o cenário mais frequentemente indicado. Enquanto escrevo estas palavras, na noite de sábado, 24 de outubro de 2025, o resultado das eleições está absolutamente indefinido.
Para os comunistas, democratas e patriotas mais conscientes e organizados, é importante estarmos preparados para todos os cenários e, apesar de não podermos profetizar nada, podemos intuir algumas das características da conjuntura do futuro próximo com base nas condições que já conhecemos.
Um longo e penoso terceiro turno
Antes mesmo do resultado do primeiro turno, sabíamos que a luta contra o bolsonarismo seria prolongada e difícil. Mesmo em caso de vitória, o bolsonarismo já demonstrou que tem vocação golpista – contestará os resultados, sejam eles por diferenças magras ou dilatadas – e, se tiver condições, poderá tentar novas aventuras golpistas. Tais tendências podem ser facilitadas pela nova legislatura altamente reacionária e conservadora no Congresso Nacional.
A verdade é que o bolsonarismo sempre quis o golpe. Para o fascismo, eleições são um risco que tumultua o bom andamento do seu programa – a submissão do trabalho e das riquezas nacionais aos interesses do capital financeiro. Nesse sentido, a existência de um setor democrático pujante como aquele liderado pelo PT é um obstáculo que precisa ser eliminado. As eleições devem ser mantidas apenas se a oposição estiver bastante contida e não ameaçar o processo de intensificação da acumulação do capital. A vitória de Lula em 2022 demonstrou que isso é impraticável no Brasil, pois o perigo de perder o governo e interromper sua rapina capitalista é alto demais enquanto a oposição tiver este grau de força.
Por isso, argumento que, na hipótese da vitória de Lula, teremos os primeiros meses ou até dias de bastante instabilidade e apreensão. O bolsonarismo, dirigido diretamente pelos neocons de Trump, não reconhecerá a derrota e tentará desestabilizar o governo de todas as formas. Ora se apoiando na maioria congressual, ora fazendo uso da sua máquina de manipulação e de sua base social mais radicalizada – o fascismo vai vir para cima.
Além disso, no médio e longo prazo, ao longo dos quatro anos de mandato, podemos esperar um bolsonarismo raivoso e espumando contra um governo que terá uma minoria congressual. Nesse cenário, só um programa de reformas audacioso e muito mais profundo do que aquele historicamente oferecido pelos governos petistas – apoiado nas mobilizações populares que apenas despertaram durante o segundo turno dessas eleições e podem ser ampliadas ainda mais – poderá criar condições de resistência e avanço numa conjuntura de desafios imensos.
Na hipótese de uma derrota eleitoral, teremos de rapidamente nos livrar do pessimismo imobilizante que inevitavelmente se seguirá ao resultado das urnas. Nessas condições, a situação do povo brasileiro se tornará absurdamente crítica. O bolsonarismo provavelmente adotará a tática trumpista de uma Blitzkrieg de decretos – depois da posse, ele vai assinar vários decretos e enviará numerosas emendas constitucionais ao Congresso em um curtíssimo espaço de tempo, dando pouco tempo para que a oposição consiga sequer reagir.
Essa tática de guerra relâmpago, apesar de ser efetiva no curto prazo, criando tantas frentes de batalha que pode nos desorientar sobre o que priorizar defender, pode também favorecer uma crescente unidade de frentes de luta – pode ser que, tão rápido quanto eles nos ataquem, mais depressa nós consigamos forjar um amplo movimento de massas que se oponha não a esta ou àquela medida antipovo, mas ao próprio governo.
Entendo que, na tristeza que nos envolve diante da derrota, argumentos racionais podem não ser suficientes para inspirar uma mudança de postura rapidamente. Na hipótese da derrota, veremos o sentimento de negação e inconformismo ser brevemente substituído por uma revolta cega que buscará culpados e se voltará contra o próprio povo, acusando nossos próximos de ignorantes ou burros por terem eleito o bolsonarismo. A confusão política e ideológica que se segue depois de uma derrota dessa importância tem o potencial de solapar a unidade contra o fascismo gerada no período eleitoral e sedimentar a base social que se formou no processo.
Por essa razão, a firmeza política dos comunistas, dos setores mais avançados da esquerda e das forças democráticas será imprescindível para que a resistência consiga contra-atacar e retomar o terreno político perdido para o bolsonarismo nos últimos anos. Formar uma frente de esquerda com comando único e com grande capilaridade será essencial para direcionar as lutas parciais no sentido de uma luta contra o governo que, dependendo da radicalidade do programa assumido, poderia se converter em uma luta contra o regime autocrático-burguês que persiste em nosso país. Não podemos cair em uma luta fratricida pelo protagonismo e devemos condenar disputas para ver quem assume “o legado de Lula”.
Precisamos nos lembrar de que a luta de classes é implacável e inexorável. O fascismo retorna sempre numa versão pior do que aquela que o precedeu. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro vai realizar as maiores atrocidades políticas e econômicas que podem ser esperadas dele. E tantas outras que nem somos capazes ainda de antecipar. Todas essas medidas tendem a provocar uma ferrenha oposição das massas trabalhadoras, que verão suas condições de vida piorarem drasticamente.
Neste segundo turno, percebemos que o povo brasileiro tem fortalezas de consciência que talvez muitos de nós tenhamos subestimado. A espontaneidade e a disposição de luta do povo contra o fascismo se afirmaram com uma energia inédita, assumindo uma envergadura verdadeiramente nacional, até mesmo no Brasil profundo. Essas fortalezas precisam ser consolidadas e mobilizadas permanentemente daqui para frente, na hipótese da derrota e na hipótese da vitória.
As lutas surgirão, quer nós queiramos ou não, seja sob a nossa orientação ou não. O povo trabalhador do Brasil quer lutar, mas precisa de direção e de organizadores.
A ameaça de um regime ditatorial
Muitos de nós têm receio da possibilidade de um endurecimento do regime no caso de uma derrota eleitoral. Essa possibilidade é concreta, considerando vários fatores – o desejo declarado do fascismo de avançar nessa direção, o grande peso congressual, o apoio do imperialismo e de seus monopólios digitais. Não há cláusula pétrea para o fascismo, e eles vão agir para alterar e deformar a Constituição. Mas entre um regime autoritário e golpista e um Estado abertamente policial há uma distância considerável. Nas condições atuais, um regime bolsonarista não tem condições de realizar uma perseguição política massiva e ostensiva. Uma tentativa como essa seria rapidamente frustrada porque o clima político nacional é de uma liberdade relativa bastante usufruída pelas massas. Mesmo no campo do bolsonarismo lato sensu, não há anuência quanto a uma repressão que teria como alvo centenas de milhares de pessoas – um contingente imensamente maior do que aquele que foi perseguido em 1964.
Essa hipótese só é viável através de aproximações sucessivas – a guerra relâmpago interna não poderá ser aplicada à perseguição, à prisão e à morte dos opositores do governo. O que pode ocorrer é um sistema de punições exemplares, cuidadosamente pensadas para instilar medo e terror na base social que sustenta a luta democrática em nosso país. Matar, prender e perseguir lideranças de calibre médio ou grande para forçar uma dispersão da base social através do medo e, assim, intimidar as lideranças populares, deixando as lutas que surgem espontaneamente acéfalas.
Essa é uma possibilidade real de endurecimento do regime. Mas ela também tem custos e riscos, podendo provocar uma reação mais forte das massas, que podem não assistir passivamente à liquidação de suas lideranças. Por isso, precisamos, desde já, criar ou ampliar as salvaguardas de segurança que protejam nossos quadros de uma repressão que seja plausível e não imaginada – não podemos nos deixar afetar pela tática do terrorismo político. São os fascistas que devem começar a ter medo das massas quando elas abandonarem o voto como meio de expressar seus anseios. Qualquer ruptura política é uma aposta e uma faca de dois gumes, porque autoriza moralmente o adversário a reagir na mesma proporção.
Por último, o programa do fascismo para o Brasil é a radicalização da pobreza, da fome e da exploração, apoiado pela maior e mais perigosa força militar, ideológica e política da humanidade – o imperialismo dos EUA. Nós já somos profundamente vitoriosos por termos resistido há tanto tempo. Temos de confiar nas fortalezas de consciência do povo e mobilizá-las para as batalhas que se avizinham. Agora ou depois, venceremos!