Nova arma do imperialismo americano e nova ilusão da esquerda brasileira

Nova arma do imperialismo americano e nova ilusão da esquerda brasileira

Por: Henrique Martins

Tratarei neste artigo sobre uma notícia que recebi com decepção nos últimos dias e julgo de relevância suficiente para tecer algumas linhas e compartilhar com vocês. Trata-se da criação de mais uma ONG norte-americana dedicada exclusivamente para intervir na vida política de nosso país, e nesse caso contando infelizmente com a anuência, apoio e participação de significativos setores da esquerda brasileira. Que o imperialismo aja por meio do financiamento de grupos com pautas pós-modernas, anti-marxistas, conservadoras, etc. eu creio não ser novidade para ninguém. Penso que já é bem estabelecido que o imperialismo faça uso frequente do artifício de fomentar pautas fictícias e visões de mundo bizarras, bem como promover a criação de lideranças artificiais, para desviar a classe trabalhadora de um país do caminho de sua organização enquanto classe revolucionária auto-superadora. O que esse episódio indica (mas não inaugura) é que o hoje o imperialismo também pode ver serventia no fomento e no apoio a organizações que atuem diretamente ligadas aos movimentos populares de esquerda e com as mais justas bandeiras aparentemente a favor do povo trabalhador brasileiro. 

Estou falando aqui do Washington Brazil Office que diz ser 

uma instituição independente que se especializa em pensar sobre o Brasil e apoiar ações que fortaleçam o papel da sociedade civil e das instituições dedicadas à promoção e defesa da democracia, direitos humanos, liberdades e desenvolvimento ambiental e socioeconômico sustentável do país.

Independente de quem? É o que veremos em breve. Por ora, vejamos seus objetivos declarados:

Nosso objetivo é produzir conhecimento e apoiar o trabalho internacional de todos os setores que precisam de suporte, ação, trocas bilaterais, produção de conhecimento, e a construção de relações cooperativas entre o Brasil e os Estados Unidos e/ou com organizações internacionais e grupos sediados nos Estados Unidos (sic).

Para alcançar tão nobres objetivos, eles realizam atividades como:

  • Promover a mobilização internacional e o apoio junto a instituições dos setores público e privado nos Estado Unidos, tais como o Congresso, Departamento de Estado, sindicatos, ONGs regionais e globais e universidades;
  • Um artigo de políticas sobre o Brasil é publicado e enviado à Casa Branca a cada ano, ressaltando as principais áreas de preocupação no país;
  • Organizamos eventos bilaterais e debates sobre tópicos de interesse comum entre o Brasil e os Estados Unidos, realizando uma conferência anual, e apoiando e organizando campanhas ao longo do ano;
  • Nós conduzimos e disseminamos estudos, publicações e investigações relacionadas ao Brasil. Também mantemos um Observatório da Democracia Brasileira para monitorar o estado da democracia no país;
  • Nós mantemos um espaço para informação pública e reflexão sobre a realidade brasileira e agenda de comum interesse entre o Brasil e os Estados Unidos, cooperando com redes de especialistas entre os dois países.

Várias coisas nos chamam a atenção. A primeira é que apesar de serem supostamente independentes, eles se comprometem a periodicamente informar a Casa Branca informando as principais “preocupações” (de quem?) no Brasil. Em outras palavras, eles fazem um trabalho de inteligência para o governo dos EUA. Mais ainda, na medida em que eles promovem um observatório sobre nossa democracia, fica claro que eles se arrogam o direito de avaliar nossos assuntos internos. A democracia no Brasil, ou a falta dela, é um problema exclusivamente de nós brasileiros, ou no máximo dos trabalhadores de cada país em expressão reativa de solidariedade à classe trabalhadora brasileira. Entretanto, recorte de classe é algo que não passa nem perto da WBO. E o que mais chama atenção são as reiteradas menções aos supostos “interesses comuns” ao Brasil e aos EUA. Quais seriam esses interesses comuns, quando sabemos que desde a criação de ambos os países os EUA nos veem como seu rival e empecilho maior para a consecução de seu objetivo imperial sobre o continente americano? Quais são os interesses maiores do Brasil? Desenvolver nossa infraestrutura urbana, revitalizar nossa indústria, aproveitar economicamente nossas riquezas naturais de modo sustentável, acabar com a miséria em nossa população, desenvolver nossa ciência e tecnologia, dentre outros. Quais desses são comuns aos Estados Unidos? Absolutamente nenhum. 

Como dito, esse tipo de conversinha mole sobre democracia, direitos humanos e liberdades já não nos é novidade, o que é de certa forma novo é ver quem são as figuras e organizações que estão se prestando ao lamentável papel de apoiar esse tipo de iniciativa que não tem nada em comum com os interesses nacionais-populares dos brasileiros. Como embaixadores da WBO temos o ator Wagner Moura, o comediante Gregório Duvivier, a cantora Daniela Mercury, Sonia Guajajara (APIB e PSOL) e o célebre amigo de Israel, Jean Wyllys (PT). Esses são os encarregados de dar legitimidade à ONG perante o povo brasileiro, enquanto os responsáveis por efetivamente elaborar política e fazer o trabalho de direcionamento político são um conjunto de cidadãos dos EUA, em geral professores de suas universidades. Chama atenção, entretanto, que muitos desses são brasileiros que foram estudar nos EUA e acabaram por lá ficando, indicando para nós o perigo estratégico que é enfraquecermos nossas universidades e institutos de pesquisas nacionais: não apenas deixamos de contar com cérebros de alta qualidade para o desenvolvimento nacional, como também acabamos por fornecer aos nossos inimigos imperialistas quadros que nos conhecem bem para trabalhar sob seus desígnios. 

Além de todas essas figuras, temos ainda o conselho consultivo da WBO, que é onde encontramos as maiores decepções para aqueles que como eu, não esperariam ver movimentos populares brasileiros cooperando com esse tipo de iniciativa anti-nacional. Lá temos representantes de entidades como: Coordenação Nacional de Articulação dos Quilombos (CONAQ), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), UNEafro, Instituto Marielle Franco, Instituto Vladimir Herzog, Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), dentre outras. Sei muito bem das boas intenções da maior parte dessas entidades, sobretudo MAB e MST, que são movimentos populares que sempre defenderam um nacionalismo genuíno, ligado às demandas populares, e que inclusive ostentam o esplendoroso mapa do Brasil em suas bandeiras. Por isso quero acreditar que isso seja uma confusão passageira e que eles logo percebam que nada dessa articulação pode vir de benéfico para suas lutas por reforma agrária, soberania energética e justiça social.

De certo modo, posso entender a confusão de apoiar e compor esse tipo de iniciativa, considerando que ela apresenta para os brasileiros um conjunto de pautas e bandeiras extremamente similares às que o movimento progressista costuma aqui defender. Seus programas incluem o ativismo em torno de questões como democracia, direitos humanos, liberdade de expressão, Amazônia, mudanças climáticas, igualdade racial, superação do racismo, gênero, diversidade sexual, fortalecimento da sociedade civil, proteção social, sindical, ambiental, indígena, de jornalistas, e o desenvolvimento socioeconômico sustentável de acordo com a “Agenda 2030” da ONU.

Todas essas bandeiras são importantes, mas tornam-se poeira ao vento quando não são organizadas em torno de um projeto nacional soberano, afinal no paradigma global vigente não pode existir liberdade, direitos humanos, igualdade racial, de gênero, diversidade sexual, direitos indígenas, etc. se não existir um Estado nacional forte e soberano. Não irei desenvolver aqui essa questão, mas sempre é bom reiterar que o caminho para a efetiva soberania nacional no Brasil não pode ser outro senão o do socialismo. É claro que falar em socialismo seria pedir demais para uma ONG, mas notemos que ela não dá peso algum para a questão nacional, que como dito, é a condição necessária para tudo que ela diz defender. 

Vejamos por fim que são as organizações parceiras da WBO. Não as brasileiras, responsáveis por executar sua política aqui dentro, mas as internacionais, que são as suas financiadoras e que efetivamente formulam sua linha programática. Temos como parceiras o Centro de Pesquisa Política e Econômica (CEPR), Just Foreign Policy, Amazon Watch, WOLA e US Network for Democracy in Brazil. Quanto a quem paga a conta, nada menos do que a famigerada Open Society Foundation do magnata húngaro-americano George Soros, conhecida por financiar o liberalismo, identitarismo, pós-modernismo e tudo que não presta pelo mundo a fora; e um tal de Instituto Galo da Manhã, fundação filantrópica financiada pelos herdeiros do banqueiro Fernão Bracher. Ou seja, não temos sequer uma organização de caráter popular ou trabalhista do mundo apoiando. O financiamento é inteiramente proveniente dos fundos de magnatas e portanto serve aos desígnios particulares deles. 

Frente a isso, é possível que alguns companheiros da esquerda se posicionem dizendo que concordam em não dar confiança para esses grupos, mas que não estão sendo manipulados pois o apoio e financiamento que recebem são para pautas que eles “já defendiam”, e portanto seríamos nós que estaríamos nos aproveitando taticamente de uma abertura deixada pela burguesia. Ledo engano em minha opinião. Essa turma não dá ponto sem nó. Eles sabem que a forma mais segura de sair ganhando num conflito é apoiando os dois lados. Muito embora a chave para a superação das mazelas sociais em nosso país passe pela organização popular revolucionária, enquanto ela não tiver como centralidade a questão nacional, ela será inofensiva para o imperialismo e poderá ser, e de fato está sendo, manipulada pelos mesmos interesses nacionais que manipulam e insuflam a extrema direita, o liberalismo, a xenofobia pelo mundo.

Sobre esse assunto, aproveito para remeter a uma discussão recente na qual o militante comunista Jones Manoel em vídeo debatia sobre o conceito de guerra híbrida. De modo geral tenho bastante concordância com ele em seu esforço de não nos deixarmos levar somente pelos conflitos geopolíticos e ignorar os conflitos de classe em cada país. Entretanto, ao final Jones ao meu ver se confunde quando tenta explicar que não é porque alguém trabalha recebendo dinheiro de organizações como Ford Foundation (notório e histórico braço da CIA no terceiro setor) que a pessoa seria um agente da CIA. De fato, colocar dessa forma seria uma simplificação tosca, mas a questão é se perguntar por que os Estados Unidos, seja por agências públicas ou privadas, tem interesse em financiar esse tipo de agenda? A resposta para essa pergunta é de suma importância e exige uma investigação atenta e portanto não preguiçosa, mas independente das motivações dos EUA, o fato é que o interesse deles em financiar tais atividades existe. E existindo tais interesses, é seguro para aqueles que como eu são patriotas e revolucionários saber que nada de bom pode vir dali.

Não pretendo encerrar essa questão nesse texto. Penso que apenas introduzi a questão e delineei seus contornos principais. Devemos continuar acompanhando (de longe, não participando) as atividades dessa WBO e outros dispositivos congêneres e ir vendo o que de fato eles produzem e ver se a realidade empírica confirma ou não a leitura que temos até aqui. Precisamos urgentemente pressionar, cobrar, convencer que as figuras públicas e organizações brasileiras honestas que entraram nessa caiam fora dessa cilada. Mais que isso, precisamos debater cada vez mais a centralidade da questão nacional enquanto particularidade inescapável da luta socialista em nosso país.

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