Balanço da Juventude Comunista Avançando sobre 1 ano de ensino remoto na USP

Balanço da Juventude Comunista Avançando sobre 1 ano de ensino remoto na USP

O início do ano letivo na USP nos aproxima do marco de um ano de Ensino Remoto Emergencial (ERE) na universidade. Desde a produtivista e elitista toada do reitor Vahan Agopyan, “a USP não pode parar”, alinhado ao governo Bolsonaro e João Dória, o ensino emergencial avançou deixando estudantes à sua própria sorte. As aulas prosseguiram independentemente dos alunos, que muitas vezes seguiam sem condições adequadas para acompanhá-las, por problemas que vão desde falta de computadores e chips até insegurança alimentar, problemas estruturais na moradia e sobrecarga de trabalho, também doméstico. Até mesmo no CRUSP, gerido diretamente pela Universidade, os moradores sequer possuíam internet. Para todos esses, as aulas pararam e ainda estão paradas.

Vahan Agopyan, as faculdades e a maioria dos departamentos deixaram seus estudantes à deriva. De forma sintomática, a quantidade de trancamentos de semestre chegou a praticamente dobrar de número em relação aos de 2019 em alguns departamentos, como é o caso do curso de Letras. Só na FFLCH atingiu-se 1334 trancamentos em 2020; a quantidade de formandos caiu pela metade, totalizando 298 em comparação aos 647 de 2019, dentre os cerca de 13.000 estudantes da unidade. As políticas de permanência, por sua vez, não corresponderam ao recrudescimento da crise do capital e decorrente aumento da fome, da miséria e desemprego – que já atinge 50% dos jovens de 18-24 anos -, mas, pior, tiveram diminuição efetiva em relação ao ano anterior: de 3489 pessoas contempladas em 2019 por tais políticas, apenas 1886 tiveram acesso às mesmas no ano passado.[1] 

Neste cenário, não para de crescer a responsabilidade e obrigação da nossa universidade  em fornecer políticas de permanência que reduzam as desigualdades da sociedade em seu interior, para que possibilite a todas e todos a capacidade de produzir as soluções necessárias para os problemas dos setores com que estão comprometidos, dado seu papel fundamental no ensino,  pesquisa e produção de conhecimentos e tecnologia. No entanto, fica evidente que mesmo com aparências diferentes, o programa de Bolsonaro, Dória e Vahan é o mesmo para a ciência brasileira. Vivemos um intenso período de desmonte das universidades públicas e vemos sua vinculação cada vez mais direta  com os monopólios e agências do imperialismo via financiamento privado e “parcerias” que orientam ideologicamente a produção, como no caso da Agência USP de Inovação (AUSPIN). É o sonho de consumo dos monopólios nacionais e estadunidenses transformar os grandes pólos de produção de conhecimento que são as nossas universidades públicas em um “puxadinho” dependente das empresas e a elas vinculados. Nesse sentido, o ensino público é um gasto a ser reduzido, e a extensão algo abominável. 

Neste contexto, após um ano de pandemia, a mídia burguesa anuncia o que denunciamos desde o início (https://www.facebook.com/jcasaopaulo/photos/118336829809330/): o Ensino Remoto Emergencial serviu como experiência e agora o ensino híbrido e disciplinas EaD são um horizonte permanente. Os recorrentes posicionamentos do reitor Vahan e de seus pró-reitores de graduação e pós-graduação, que culminaram no edital da PGR 001/2020-2021 “Novos currículos para um novo tempo”, indicam e incentivam novas metodologias, como a pedagogia ativa, amplamente alinhadas ao pragmatismo e tecnicismo acríticos das competências da BNCC e BNC, bem como a adoção de novas tecnologias de ensino remoto. Esse conjunto não deixa margem para dúvida.

O processo de hibridização do ensino e expansão do EaD nas universidades públicas está vinculado às múltiplas necessidades do capitalismo mundial e não pode ser compreendido (e nem combatido) de forma isolada e desvinculada em um curso ou universidade. O começo da pandemia fez surgir em nossa universidade, diversos movimentos de entidades e grupos de estudantes que rechaçavam o ensino remoto.  Essa foi também a nossa posição. Compreendemos, no entanto, que o conteúdo político dessas reivindicações e denúncias estava correto, e só não se massificou entre os estudantes devido: a) às posições recuadas da direção do DCE e também por organizações que fazem oposição ao PT e que não só ficaram inertes, como ativamente apresentaram política para desmobilizar a organização e reivindicações dos estudantes; b) à truculência da reitoria e seus agentes nas faculdades, que conformaram ampla maioria e articulação frente aos estudantes, que estavam sem possibilidade de se reunir no cotidiano da universidade, principal espaço de articulação, reunião e mobilização. No entanto, com a gestão criminosa dos governos genocidas em nível nacional, estadual e municipal da pandemia, e seu decorrente prolongamento, a simples contrariedade a um ensino remoto emergencial se mostrou uma tática inadequada. 

A mera agitação contra o EaD e o (ERE) enfraquece o diálogo não só com setores acríticos e conformistas da universidade, mas também com os estudantes trabalhadores e proletarizados que buscam acelerar ao máximo sua formação para garantir uma elevação da renda familiar. Era possível (e isso foi negado pela ampla maioria dos professores e dirigentes de departamentos em consonância com a reitoria) um ou mais de um semestre preparatório, sem disciplinas obrigatórias e com a impossibilidade de reprovações. Assim como era (e continua sendo) necessária uma orientação rígida para maior permissividade dos professores, fim da cobrança de presenças e acompanhamento permanente de comissões mistas entre as três categorias, das condições de trabalho e estudo. É inaceitável que num período de tantas mortes e incertezas  tenhamos de um lado professores com mais de 50% de reprovações, cobrança de presenças síncronas e extensos trabalhos e, de outro, professores como Ricardo Felício, famoso bolsonarista que há muito deveria ter sido exonerado por conduta imprópria ao servidor público, que abandonou as disciplinas obrigatórias e optativas que ministrava e todos seus estudantes à própria sorte, causando a superlotação de salas e descontinuidade de matérias.

Para o ano letivo que se inicia é imprescindível o firme posicionamento dos estudantes comprometidos com a luta por uma universidade vinculada às necessidades e problemas de todos aqueles que são contrários aos interesses destes monopólios ávidos por uma fatia do ensino superior público brasleiro. A hibridização do ensino já está em pauta na USP, e avança tanto pelo convencimento ideológico como financeiro. O primeiro, se dá pelas longas explanações do reitor e da mídia burguesa acerca da necessidade de se modernizar a universidade para mantê-la à altura dos “novos tempos”, trazendo vocabulário aparentemente despojado, mas alinhado às orientações do Banco Mundial e seus ideólogos reacionários e conservadores. No caso das universidades públicas, são evidentes as posições dos políticos a serviço dos monopólios e imperialismo, que se beneficiam da permanente hibridização do ensino já que, com isso, é possível reduzir o orçamento destinado aos  custos fixos – bem como refrear o acesso da USP às camadas populares. 

Precarizar o ensino teórico crítico e os espaços de debate é uma necessidade para a burguesia e seus representantes na burocracia estatal. Estes setores defendem a suposta  “individualização  do aprendizado” dos estudantes – que, ressaltamos, é sempre social -, alienando e estranhando os professores do verdadeiro significado e papel do seu trabalho enquanto educadores, e transformando cursos que deveriam ser o gérmen do estudo crítico e da solução original dos problemas gerais do nosso povo (tanto nas ciências quanto nas engenharias), em meros espaços de transmissão de conteúdos, supostamente “não ideologizados”, como apregoam os partidos mais reacionários e bolsonaristas, e os falsos representantes de uma suposta “esquerda racional”, como os deputados da bancada Lemann, em destaque a deputada Tábata Amaral.  O convencimento financeiro, por sua vez, se dá por meio de editais que incentivam tal espoliação, como é o caso já citado das “agências de inovação”, das parcerias e bolsas financiadas por agências imperialistas e o acima citado “Novos currículos para novos tempos”. 

Os ataques à educação vêm de longe e coincidem com  as investidas perpetradas pelos donos do poder aos trabalhadores em geral, que atingem níveis mais elevados desde a configuração da crise estrutural do capital. É, portanto, em alinhamento com tal perspectiva que o combate à hibridização do ensino nas universidades públicas deve ser pensado. As bandeiras do movimento estudantil, e universitário em geral da USP neste próximo ano devem unificar todas as categorias e buscar combater a hibridização do ensino e seus males em todas suas faces. 

Dividimos as bandeiras em pautas locais e amplas, que estão intimamente articuladas: 

  1. É inaceitável normalizar estes números de evasão da universidade, que se constitui, na verdade, enquanto um processo de elitização desta; 
  2. assim como é inaceitável que a reitoria utilize deste momento para passar a boiada aprovando um novo regimento disciplinar interno e um editalque transforma o “laboratório” do EaD realizado na pandemia em um ensino híbrido permanente.  
  1. É urgente a ampliação da oferta de auxílios e bolsas, assim como o aumento de seu valor. 
  2. É inadmissível que o CRUSP continue com uma infraestrutura que coloca em riscos a vida dos estudantes e os impede de acessar as aulas, e que a reitoria consolide a nova base da PM ao lado do CRUSP.
  3. As reprovações por falta durante a pandemia não podem ocorrer.
  4. É necessário que os prazos e programas sejam diferentes aos do regime presencial, que todas as aulas sejam gravadas e disponibilizadas sem constrangimentos, que a carga horária dos funcionários e professores seja adequada e reduzida devido à alta e intensa demanda causada pelo teletrabalho. 
  5. No entanto, é imperativo que os grupos de estudo, projetos de pesquisa, entidades e grupos de estudantes auto-organizados busquem alternativas à queda de qualidade do ensino. Precisamos vincular durante este período os grupos de pesquisa a temas correlatos às disciplinas que estão sendo ofertadas, ampliar não só as monitorias, como espaços coletivos de resolução de dúvidas e integração entre os estudantes, ofertar cursos via entidades, etc.

Mas, além dessas pautas imediatas, mais sentidas por nós estudantes e trabalhadores, precisamos integrar todos os setores da universidade, e buscar solidariedade ativa de todos os setores beneficiados pelo caráter público e gratuito das universidades, seja a comunidade que utiliza o HU, cursos de extensão, escolas etc., na luta contra a hibridização do ensino e os recorrentes ataques financeiros e programáticos que promovem a privatização da USP. Os recorrentes ataques e derrotas de outros setores em suas agendas específicas mostram que frente aos setores mais reacionários e terroristas do capital financeiro, a mobilização isolada de uma categoria ou grupo é insuficiente. Os interesses dos monopólios e do imperialismo sobre a educação possuem um programa global, desde o financiamento, conteúdo e forma da educação em todos os seus níveis. A nossa resposta precisa ser também global. 

As aulas presenciais só podem retornar com a vacinação total de toda a população, por isso Vacina Já! E, enquanto não retornamos, é preciso engrossar a luta contra a hibridização e expansão permanente do EAD, que nada mais é que um modelo vinculado exclusivamente aos interesses capitalistas e constitui em mais um passo da privatização da nossa universidade! 

Por saúde, pão, vacina e educação!

Contra a permanência do ensino híbrido nas universidades após a pandemia!

[1] Cf. https://dados.fflch.usp.br/ 

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