Fora Bolsonaro Genocida e seu governo entreguista

Fora Bolsonaro Genocida e seu governo entreguista

Em defesa da vida, das liberdades democráticas e da soberania nacional

Resolução da Direção Nacional do Polo Comunista Luiz Carlos Prestes referente aos últimos acontecimentos nacionais

A direção nacional do PCLCP em data recente discutiu os últimos acontecimentos nacionais e aprovou novos posicionamentos que refletem sobre as batalhas da esquerda e das forças populares no presente momento. Um erro muito difundido no campo popular e progressista, que se opõe ao Bolsonarismo, é protelar ou projetar tudo para as eleições de 2022. O povo brasileiro está mergulhado numa tragédia histórica inédita e a situação política é profundamente volátil e incerta. Há batalhas fundamentais a serem travadas agora, em 2021, e que não devem ser subordinadas às ideias fixas que vegetam em torno do calendário eleitoral.

Em defesa da vida

A primeira batalha diz respeito à defesa da vida a ao enfrentamento da Pandemia. No Brasil, sob o Regime Golpista/Bolsonarista, a difusão desimpedida do contágio e generalização da Pandemia foi uma estratégia deliberada de governo: a busca da “imunidade de rebanho”. O significado bolsonarista desta expressão é: deixar que a doença se espalhe “livremente” e provoque todo a desgraça e todas as mortes que ela pode provocar no seio do povo. Desde março de 2020, Bolsonaro exige a eliminação de todas as restrições da quarentena. Ecoa o argumento de milionários a ele ligados: “a economia não pode sofrer por conta de 5 mil, 7 mil pessoas que vão morrer”. Hoje, 31/03/2021, os números oficiais da Pandemia – certamente subnotificados – registram 12.753.258 casos e 321.886 mortes.

Esta situação não se deve a causas naturais. Bolsonaro é o maior responsável pelas dimensões da catástrofe: resultado de uma política que nega a ciência e expõe o povo brasileiro à morte. Desde o início diz que o Covid-19 é “gripezinha” e sabota o isolamento social. Após enfraquecer o SUS, via subfinanciamento, anuncia sua privatização. A falsa opção entre “saúde” e “economia” tenta esconder que a recidiva da Pandemia iniciada no final de 2020 foi causada pela “liberação geral”, desordenada e precoce, em função de sua pressão sobre as autoridades locais. Daí a crise sanitária prolongada, com mais vítimas e maior ruína econômica. Se hoje pequenas empresas de comércio e serviços estão fechando é porque o Governo federal se negou a comprar vacinas oferecidas por vários fabricantes em meados de 2020. Bolsonaro continua defendendo o uso de medicamentos inúteis para tratar o Covid-19, mas que não são meros placebos, pois causam efeitos colaterais graves e até mortais. O genocida continua a negar o que dizem os médicos e a fazer declarações ridículas, acusando a OMS de ser um “órgão controlado pela China comunista”.

O “negacionismo” em relação à Pandemia praticado por neofascistas, como Bolsonaro e seu “ídolo” Trump, é semelhante ao do lobby da indústria do tabaco. Eles sabem que estão mentindo, sabem que negam a verdade. Apoiam, porém, sua poderosa “fábrica de desinformação” e manipulação sobre a base de uma ideologia conservadora enraizada, segundo a qual “a estrutura social é imutável”. Para eles, é claro: o problema “não é” a crise estrutural do capital, “nem que” quase todos os Estados do mundo organizam interesses do capital financeiro. Os problemas atuais são causados por “socialistas”, pelos “desvios” de elites culturais, mulheres donas de suas próprias vidas; ou por “privilégios” de trabalhadores, imigrantes, gays, negros, índios; ou dos “nefastos conluios” destes com ecologistas: empenhados em mudar “o estilo de vida ocidental” e atrapalhar os investidores e o crescimento econômico. Nesta “lógica”, as Pandemias não se explicariam pela crise ecológica gerada pelo domínio do capital: desertificação, urbanização descontrolada, irracionalidades da indústria de alimento de origem animal e da agroindústria de monocultivo genético. Não se trata apenas de ignorar o movimento alienado de relações sócio-materiais capitalistas. Pandemias globais são atribuídas a causas fantasiosas: por exemplo, supostos “complôs” comunistas para frear a economia Ocidental. Bolsonaro e afins se empenham numa “Cruzada” de pretensa “defesa da economia”: cortar gastos em serviços públicos e direitos trabalhistas, redirecionando-os para o apoio estatal à acumulação e centralização de capital. Buscam “naturalizar” o trabalho precário e sem direitos; acostumar trabalhadores ao risco de vida em meio à disseminação de Pandemias.

As formas de consciência ideológica ilusórias e as mistificações deliberadas podem adquirir grande força política, mas sua eficácia diante da realidade encontra limites claros. A Pandemia cresce exponencialmente em nosso país: fora de qualquer controle. O mês mais mortífero da Pandemia – 66.868 mortos por Covid, mais do que o dobro do 2º mês (07/20) com mais óbitos, 32.912 – na semana com a média móvel mais elevada (2971 por dia), terminou em 31/03 com o dia mais letal: 3.950 mortes em 24h. Em meio ao maior colapso hospitalar da nossa história: os estoques de oxigênio e medicamentos para pacientes nas UTIs devem se esgotar, em todas as regiões brasileiras, dentro de uma a quatro semanas. A lista de espera por um leito de UTI chega a 8 mil pessoas. Se nada for feito, nas próximas semanas passaremos da média de 3500 para 5000 mortos por dia, com previsão de um total de 500 mil óbitos por volta de julho (equivalente a toda a população da cidade de Florianópolis, por exemplo).

Bolsonaro provocou uma crise política no seu próprio Ministério ao enviar Carta ao STF solicitando a revogação das poucas medidas de Confinamento que ainda protegem alguns do vírus fatal. Chegou a apelar para o ambíguo artigo 142 da CF para tentar usar as Forças Armadas, aleganda “garantia da lei e da ordem” contra governadores e prefeitos que, cumprindo seu dever, faziam o que ele se nega criminosamente a fazer. Ao assinar sozinho o documento – sem o AGU, José Levi, que se negou a firmar a infame carta – Bolsonaro mostrou, mais uma vez e cabalmente, que renunciou à obrigação inerente ao seu cargo de proteger o povo brasileiro contra o vírus mortal. Ao contrário: quer asfixiar o nosso povo.

Médicos e pesquisadores exigem energicamente a adoção de medidas radicais e urgentes de contenção da Pandemia. Um dos mais eloquentes, Miguel Nicolelis, é também um dos mais respeitados na comunidade científica internacional. Ele prevê “um colapso funerário” já em meados de abril: “começaremos a ver corpos sendo abandonados pelas ruas, em espaços abertos; teremos que usar o recurso terrível de usar valas comuns para enterrar centenas de pessoas simultaneamente, sem urnas funerárias, só em saco plásticos, o que vai acelerar o processo de contaminação do solo, do lençol freático, dos alimentos, e com isso gerar uma série de outras epidemias bacterianas gravíssimas”. Duas semanas nos separam do “ponto de não retorno”. O Brasil virou um “país pária”, reconhecido como epicentro da Pandemia, visto como ameaça para o conjunto da humanidade: está se tornando um viveiro de mutações mais agressivas do que o SARS-COV2. Documento da Associação dos Juízes do Brasil pela Democracia (AJBD), assinado por entidades de peso, denunciou o Governo Bolsonaro junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e à Corte Penal Internacional: “a gestão adotada deliberadamente em nosso país pode comprometer, concretamente, a continuidade da vida humana na Terra”. Diante da violência desta “gestão da morte” pede aos órgãos internacionais para “forçar medidas que protejam a vida dos brasileiros pelo Governo Federal”. De fato, a política do Governo Bolsonaro leva ao extermínio em massa e pode comprometer a própria soberania nacional. Já existem ações de deputados estadunidenses pedindo uma intervenção internacional no Brasil, devido à ameaça que esta política genocida representa para o mundo. Mas cabe a nós, às entidades populares brasileiras, intensificarmos de imediato a deflagração de um processo de Resistência. Trata-se de dar um Basta! Um “Basta” às mortes desnecessárias de dezenas (já centenas) de milhares. Um “Basta” ao sacrifício da vida dos nossos profissionais de saúde que trabalham sem proteção adequada. Um “Basta” ao crime de responsabilidade continuado, que condena brasileiras e brasileiros a morrer sem medicamentos, sem acesso a leitos de UTI e sem atendimento médico digno.

Para tanto, é necessário ir além do importante trabalho de conscientização. São necessárias decisões e esforços organizativos que avancem para constituição de uma efetiva Coordenação Popular de Combate à Pandemia, em contraste com a “Comissão” que o “inominável presidente” fingiu criar, por duas vezes, para enganar incautos. É necessário avançar na articulação das entidades populares com representantes da comunidade científica: competentes para gerar recomendações, propor normas e procedimentos. É necessário viabilizar alianças e coordenar ações com Instituições Públicas, Fóruns de Governadores, Associações de Prefeitos e mesmo Poderes da República independentes do Governo Bolsonaro, dispostos a enfrentar esta catástrofe sem precedentes. Tais órgãos possuem as condições para abrir as negociações internacionais necessárias. As organizações populares devem se integrar ativamente num movimento capaz de tentar viabilizar a difícil tarefa de estabelecer um “Lockdown” nacional para valer pelos próximos 30 dias, para permitir que o sistema hospitalar saia do colapso e tenha um respiro. As Autoridades públicas democráticas e antifascistas devem se comprometer com um esforço sério para aumentar o número de vacinas entregues ao povo. A meta mínima necessária, segundo os especialistas, é de 3 milhões por dia. Algo que está completamente fora das intenções do Governo Bolsonaro. Algo, porém, que exigirá recursos suficientes para adquirir as vacinas excedentes que existem em outros países. Ao vislumbrar as dimensões desta luta, fica claro que a questão não é técnica: passa pelo combate político para enfrentar o Governo Bolsonaro, derrotar suas intenções golpistas e fascistizante e construir as condições para substituí-lo por um Governo capaz de garantir que o Brasil volte a respirar (ver Adiante).

A luta contra a carestia, a fome e a miséria

A segunda batalha está ligada à luta contra a fome, a miséria, o desemprego e outras problemas econômico-sociais, como despejos por atraso de aluguel e as múltiplas carências provocadas pelo desmonte dos serviços públicos e da rede de proteção social.

Avaliamos que Bolsonaro, ao perseguir sua agenda econômica pró-imperialista, de privatizações e completa submissão da economia nacional aos interesses imperialistas estadunidenses, está levando o país a uma catástrofe social. A crise agravada pela pandemia em que morrem milhares de brasileiros e brasileiras por dia está, diariamente, deteriorando drasticamente as condições de vida da população.  O cancelamento do auxílio emergencial removeu a última salvaguarda dos mais pobres diante dos efeitos deletérios da crise do capital. Com tal cancelamento, também aumentou o desgaste de seu governo, que passou a chantagear o povo brasileiro oferecendo privatizar o que resta de nosso patrimônio em troca do auxílio. Nosso povo trabalhador está habituado em viver às margens da proteção social, mas o projeto de destruição e reprimarização das cadeias produtivas nacionais têm levado grandes massas ao mais completo desespero diante do aumento da miséria, do desemprego, da carestia e da fome.

A taxa oficial de desemprego em fevereiro no Brasil é 22,6%, mas chega à 50% entre os jovens de 18 a 24 anos. Isto sem contar os que vivem de “bicos” e os milhões de “desalentados”, que querem trabalhar, mas desistiram de procurar empregos. O desemprego real atinge mais da metade dos trabalhadores brasileiros. Além disso, 60% dos trabalhadores empregados ganham menos do que o salário-mínimo mensal.

O governo anuncia que vai começar a “liberar” o novo Auxílio Emergencial a partir do dia 06/04, em quatro parcelas. Com mais de 3 meses de atraso (desde a última parcela de dezembro), cobrindo número menor de desempregados e informais, com valor bem menor. Nestes meses, a fome se agravou terrivelmente no país. Milhões foram obrigados a se expor nas ruas, em busca do indispensável para sobreviver, ampliando a infecção. Em 2020, o Auxílio amparou quase 68 milhões de brasileiros: se reduzirá agora à cerca de 45 milhões. Se na “primeira onda”, menos letal, o benefício básico era R$ 600; agora, em plena catástrofe, será R$ 150. Segundo o DIEESE, R$ 150 só dá para 26% da cesta básica em São Paulo. É impossível um trabalhador viver com R$ 5 por dia: além de comer, ele tem outras despesas básicas (aluguel, luz, água, gás, transporte, filhos para sustentar etc.).

É óbvio que estas pessoas serão obrigadas a sair em busca de “bicos”, contaminando-se em ônibus/trens superlotados. Bolsonaro busca o caos: vai tentar jogar estas pessoas contra as autoridades (governadores e prefeitos) que fecham setores não essências como medida sanitária imperiosa.

A guerra contra a Pandemia está inseparavelmente ligada à luta contra a fome. O que passa pela recomposição do Auxílio Emergencial em no mínimo R$ 600, para todos os que dele necessitam. Só será possível combater a pandemia em conjunto com medidas de proteção dos trabalhadores e das massas populares, contra a desnutrição, o desemprego, a miséria, despejos por atraso de aluguel e todas as várias carências provocadas pelo desmonte dos serviços públicos.

Por isso, saudamos as iniciativas conduzidas no sentido de lutar para impor limites à exploração do capital dos entregadores antifascistas, por exemplo. Somam-se a esse esforço as atividades de solidariedade de classe feitas aos montes pelo Brasil. Dificultadas as condições das lutas do trabalho diante da imposição sanitária de distanciamento social, tais cometimentos são positivos para organizar as massas em torno de si mesmas, para fortalecimento de sua unidade ideológica e dos seus laços de fraternidade. Portanto, igualmente, consideramos positivo o empenho do MTST em criar cozinhas coletivas, e do MST na doação de alimentos, para saciar a fome dos que precisam em todo país, enquanto alimentam a unidade ideológica e a organização dos de baixo. Vale observar com atenção também a iniciativa dos centros socialistas construída em torno do mandato do deputado federal Glauber Braga. Ademais, as ações do movimento sindical, embora erráticas, precisam ser valorizadas. Exortamos a militância do PCLCP e a todos os democratas, revolucionários e socialistas a se engajarem em tais esforços, de forma a se somarem aos feitios já existentes ou iniciarem novas onde for possível.

A defesa das liberdades democráticas, contra a fascistização do Estado e pela unidade da esquerda

Por último, vale destacar com um dos principais eixos, o acirramento das contradições entre o programa do governo Bolsonaro e as condições da democracia burguesa limitada (e já golpeada), que se reflete numa escalada de flertes com o golpismo e o militarismo.

O projeto do imperialismo para o Brasil, que conglomera diferentes setores das classes dominantes, hoje liderado por Bolsonaro, também assumiu novos contornos autoritários. A repressão sistemática ao povo negro, dos moradores das periferias e favelas que jamais conheceram os mais básicos direitos e liberdades civis, começou a transbordar para conjunto da sociedade brasileira. A repressão policial tradicional, combinada com a intimidação político-jurídica até de elementos moderados da oposição, tem se acentuado. Denunciamos o uso da Lei de Segurança Nacional para prender manifestantes e criminalizar movimentos sociais, como foi o caso de Rodrigo Pilha. O amotinamento de PMs e a agitação bolsonarista na Bahia parece buscar capturar as polícias para seu projeto golpista. Nesse sentido, devemos juntar forças na defesa da legalidade democrática para impedir o avanço do projeto fascistizante de Bolsonaro e do imperialismo. Se trata da mutação interna da autocracia burguesa, elemento estrutural sempre presente em nossa formação social capitalista dependente, que passa para a fase da “contrarrevolução a quente”.

Vale a pena mencionar os esforços corretos de vários setores da esquerda em construir uma unidade em torno da vacinação, auxílio emergencial e em defesa da vida. Esse tem se tornado de fato o programa mínimo da esquerda brasileira como um todo. Concordamos com tal proposta, porque ataca importantes pilares da crise e da catástrofe que se constrói diante de nossos olhos.

Este programa ganhou mais concretude nas movimentações puxadas pela “Frente Fora Bolsonaro” que congregou diversas forças organizadas para construir uma unidade na ação que redundou já em algumas campanhas, mas em especial nas carreatas realizadas contra Bolsonaro. Apesar de corretos, esses esforços ainda são insuficientes. Saudamos e nos somamos através de nossa organização juvenil, a JCA, à empreitada da UNE, UBES e ANPG em sua jornada de lutas por “Vida, pão, vacina e educação”, que tem colocado tal programa mínimo em pauta.

Todos esses esforços são positivos e devem ser fortalecidos. Mas avaliamos que eles precisam ser canalizados pela pauta do Fora Bolsonaro. Sem localizar o inimigo principal do povo brasileiro, o programa carece de lógica tática e as ações se tornam desvinculadas das massas. O que conecta o programa necessário para resolver os problemas mais urgentes das massas populares com o “aqui e agora” do momento político concreto é a derrubada de Bolsonaro.

Essa desconexão do momento atual com o programa mínimo emergencial para conter a catástrofe se expressa na tardança eleitoral de parte da esquerda. Consideramos que é acertada, por exemplo, a posição de Lula em sua crítica contundente às privatizações, ao lobby armamentista associado ao complexo-militar industrial estadunidense, à destruição econômica, à defesa de uma política de emprego, assistência, renda e da defesa da vida e das corretas medidas sanitárias e epidemiológicas. Lula denunciou corretamente o golpe como um projeto do imperialismo para o Brasil. Porém, mais grave do que as posições razoáveis dentro de seu horizonte político limitado, consideramos um erro político o seu recuo diante da luta pelo Fora Bolsonaro. A recuperação de seus direitos políticos é vitória momentânea e nada garante que as eleições de 2022 ocorram, ou que não sejam empregados outros mecanismos de falsificação. Esperar passivamente sem uma contraofensiva global da esquerda contra Bolsonaro até 2022, além de vitimar milhares de brasileiros até lá, significa abrir mão de construir desde já uma correlação de forças mais favorável. Mesmo com uma eventual vitória de Lula, as condições para avançar no sentido de recuperar as perdas causadas por 5 anos de regime de exceção dependem muito de uma correlação de forças que envolva as grandes massas populares. Dessa forma, o PCLCP defende que esperar cerimônias eleitorais é um erro e que é preciso desde já agitarmos pelo Fora Bolsonaro em todos os espaços possíveis! Convocamos toda a militância do PCLCP, os democratas, patriotas, revolucionários e socialistas a se somarem às lutas pelo Fora Bolsonaro em todo o país!

No dia 29 de março, há poucos dias do aniversário do golpe militar de 1964, deflagrou-se uma situação delicada que colocou todos os democratas e socialistas do país em alerta. A demissão do chanceler de extrema-direita Ernesto Araújo, membro do núcleo ideológico faxo-olavista, eclodiu na demissão de outros oficiais do governo, incluindo o Ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. A situação ainda é incerta e está em desenvolvimento. Precisa, portanto, ser analisada com cautela. Os fatos e tendências precisam ser analisados com as movimentações mais essenciais. A DN do PCLCP, por hora, enxerga esse desenvolvimento da seguinte maneira:

Ao que parece, o crescente isolamento de Bolsonaro motivou-o a avançar contra setores relutantes em apoiar sua aventura golpista. Este flerte ditatorial não é novo, somadas as inúmeras demonstrações de desprezo pela democracia anteriores, Bolsonaro afirmou que “se aproxima a hora de decretar Estado de sítio no país, para assegurar ao povo o direito de circular e trabalhar”. O STF reagiu e, agora se sabe, Azevedo não aceitou assinar qualquer documento neste sentido. Bolsonaro recuou e chegou a negar suas declarações. Sabemos também, que ele e seus filhos encarnam um projeto militarista-fascistizante, que buscam ininterruptamente efetivar: querem desfechar um Golpe de extrema-direita e implantar um Regime ditatorial-policial sem disfarces.

A consumação de um golpe, porém, necessita ter força para tal. Seria imprudente de sua parte decretar imediatamente o “Estado de Sítio” e avançar no Golpe fascistizante sem apoio e consentimento da maior parte do grande capital, momentaneamente sem engajamento pleno e ativo dos EUA, e, sobretudo, contra o Estado-Maior das Forças Armadas, que acabaram se demitindo nesse dia 30 de março.

No entanto, a situação pode mudar rapidamente. Se o imperialismo estadunidense – em especial os interesses manifestos do seu conúbio Deep State/Wall Street – obter de Bolsonaro uma suntuosa cesta de presentes, poderá haver uma rápida retomada da política ultra-agressiva na América do Sul (momentaneamente, em certo “stand by”). Os “objetos de desejo” atuais do imperialismo estadunidense são: a China fora do 5G (exclusão sumária da Huawei da concorrência), novas manobras conjuntas com as FFAA dos EUA na Amazônia, aumento da compra de armas pelo Exército (e liberação ainda mais radical no varejo), privatização imediata da Eletrobras, concessões ainda mais radicais na política de preços da Petrobras e na entrega preferencial aos EUA do Pré-Sal e das Refinarias, aceleração do processo de entrega do Aquífero Guarani. Uma política deste tipo implica em problemas, é claro. Uma agressão destas proporções aos interesses da China, maior “parceira” comercial do Brasil, provocaria represálias econômicas devastadoras para a exportação de minerais e, sobretudo, para o “agronegócio”. Ainda assim, sabemos que Bolsonaro pode fazer essa entrega de bom grado e em parcelas.

O projeto de aviltamento nacional congrega setores diferentes das classes, desde Bolsonaro e sua gangue de fascistas, passando pelas Forças Armadas até a direita tradicional e fisiológica. Eles não discordam do programa econômico de privatização da Petrobras, da Eletrobras, dos Correios, da entrega do Aquífero Guarani. O lobby entreguista de Bolsonaro junto à nova/velha administração da Casa Branca em troca de apoio político poderia reverter a posição de militares relutantes. Igualmente, o desencadeamento de uma luta entre as diferentes frações da direita pode resultar no domínio mais completo de uma pela outra, especialmente se as forças populares e progressistas não forem capazes de explorar sua divisão momentânea. Não faltam momentos na história que partidos, grupos ou até indivíduos, mesmo organicamente descolados de classes dominantes, deram golpes ou fizeram “revoluções passivas” em nome das classes dominantes, em benefício delas, mas à revelia da sua vontade. Especialmente em situações em que existam divisões internas, frações da mesma classe podem sobrepor sua vontade sobre a outra para proteger o conjunto da ordem social e garantir a dominação da classe na totalidade.

Além disto, seria um erro imprudente resolver a complexa equação da probabilidade de um Golpe de Estado, com base apenas na posição momentânea dos Comandantes das Forças Armadas. Não temos informações suficientes sobre o conjunto da correlação de forças entre alto oficialato das FFAA. A posição momentânea dos atuais comandantes é algo que pode mudar, ou novos comandantes podem ganhar predominância. O resultado do processo político não emana meramente da intenção consciente dos agentes envolvidos. Muitas vezes, o processo apresenta desfechos que não foram concebidos ou perseguidos pelos sujeitos políticos mais poderosos (ou mesmo, por nenhum dos sujeitos sócio-políticos). A política de provocação constante de Bolsonaro pode desencadear um jogo de ações e reações que leve a cúpula Militar a se envolver em intervenções político-repressivas que podem ir muito além daquilo que pretendia inicialmente. Os generais brasileiros possuem o requisito básico do Golpismo: uma mentalidade e formação profundamente autocrática, se consideram “tutores” da sociedade, são entranhadamente pró-imperialistas (e partilham com Bolsonaro, ainda que sem seu extremismo “olavista”, preconceitos contra a China, etc).

Diante disso, o PCLCP avalia equivocadas ou apressadas as avaliações que veem apenas isolamento ou apenas conspiração golpista nas últimas movimentações de Bolsonaro.  Ambas as opções estão sob a mesa e, desta forma, devemos redobrar a atenção, a agitação e a movimentação pelo Fora Bolsonaro pela via que for possível. Discordamos frontalmente das posições que enxergam nas FFAA um rompante democrático e acreditam nas cínicas declarações de que os generais queriam preservá-las como instituições de Estado, contra a “politização dos quartéis” de Bolsonaro. Ora, as FFAA já são um gigantesco partido no Brasil de onde emana a ideologia proto-fascista que ganhou eco em Bolsonaro. Não precisamos nem ir tão longe como 1964. Há dois anos eles não hesitaram em interferir nas eleições presidenciais intimidando o STF para negar o habeas corpus de Lula. Não podemos descartar a hipótese de que tais acontecimentos sejam justamente uma nova fase da “contrarrevolução a quente”, em que uma micro-versão da estratégia golberista de “sair para voltar a intervir” esteja em efeito.  É preciso acabar, portanto, na crença mítica ou na expectativa romântica de um general democrata confrontando Bolsonaro. Estes títeres de cinco estrelas servem a um mesmo senhor: Washington.

A Direção Nacional do PCLCP aponta a necessidade das forças políticas de esquerda, os democratas, os trabalhistas e reformadores, os patriotas, progressistas, revolucionários, socialistas e comunistas a se engajarem firmemente numa ampla campanha pela derrubada de Bolsonaro, por vacinas, auxílio emergencial, e em defesa das liberdades democráticas! Ao mesmo tempo, consideramos urgente a construção de uma frente de esquerda com um programa próprio de reversão de todas as contrarreformas dos governos golpistas que seja capaz de ter protagonismo independente da oposição de direita e possa dirigir o movimento de oposição à Bolsonaro e salvar o Brasil da catástrofe iminente, enquanto abre caminho para uma democracia substantiva, para o socialismo.

Brasil, março de 2021.

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