Alegria nos pés e o povo todo dentro do peito

Alegria nos pés e o povo todo dentro do peito

ou

um elogio ao futebol brasileiro

Por: Marco Antônio Pinheiro Machado

Cultura não é brincadeira.

O sabor, o delírio, a arte de se comunicar para além das palavras e se identificar com uma ideia de país – nada disso é brincadeira.

Somos um país fraturado. Maltratado. Séculos de escravidão. Captura. Açoite. Morte. Miséria e pobreza.

E arte.

Não houve um momento em que tivéssemos paz, e continuamos não tendo.

O futebol não é brincadeira no Brasil. Toda família tem seu clube. Toda família possui os dissidentes que torcem para os rivais do clube tradicional, e também os que precisam falar de uma forma um tanto desanimada ou envergonhada: “poxa vida, eu não ligo muito para futebol”. Não interessa: mesmo os que não são fanáticos, possuem desde o nascimento o gene do convívio com o esporte.

Em nosso país, tudo se mistura com o futebol. Política, religião, mídia, emprego, educação, serviço público, poder e identidade. Não sei dizer o que fez o futebol unificar tanto o país, e talvez esse seja um dos temas mais importantes para ser estudado, pois unifica. E não há jeito, por mais que se tente tirar o futebol das camadas populares, a experiência do futebol está profundamente ligada com as suas raízes nas classes trabalhadoras brasileiras e na experiência da pobreza no Brasil.

O Brasil é brasa de gente que queima – que queima pela exaustão do trabalho, que é incinerada pelo fogo das armas nas comunidades e nas revoltas; mas é também a brasa que se incendeia de emoção e paixão por viver através de todas as adversidades que passamos por nossa história – é brasa de vontade de viver e de lutar.

O Brasil é chama que arde sem se ver, talvez?

Quando está em campo a seleção brasileira, todos têm alguma opinião. Todas as chamas do Brasil estão acessas.

Em campo, não são jogadores milionários correndo atrás da bola – são crianças pobres brasileiras, negras, mestiças, de todas as regiões, que se tornaram dançarinos no palco mais valorizado da nação – e um dos mais valorizados do mundo. Quando joga o Brasil, jogam milhões de trabalhadores brasileiros vendo que sua criatividade, sua força, seu espírito, sua ousadia, e até a sua maldade, podem ser exemplo de beleza para o mundo todo. Quando um jogador negro brasileiro vira uma meia bicicleta e golpeia uma zaga como a da Sérvia com um gol do quilate do que Richarlison fez, não é um jogador qualquer que faz um gol qualquer. Não é um homem qualquer, que veio de qualquer lugar, fazendo uma acrobacia.

Todos os trabalhadores brasileiros podem ter o orgulho de bater no peito e dizer – “isso é o Brasil”, em frente a todas as nações, e ainda complementar: “eu sou o Brasil”. Todos nós carregamos o orgulho e a beleza de encantar o mundo com nossa determinação e destreza com uma bola nos pés. E isso não é um orgulho estéril. Não se trata de amar e valorizar a natureza, de reverenciar nossas paisagens, de se orgulhar de um ou outro bem material que é brasileiro por direito, ou mesmo de dizer que é uma dádiva natural– se trata de se orgulhar de nossa identidade, de nossa história, da luta do povo brasileiro – isso não é brincadeira. Não é pouca coisa.

Não há espaço no mundo para uma história de sofrimentos apenas, para uma identidade nacional que seja só divisão, dominação, escárnio e os componentes perjuriosos da resistência. Para se criar e defender uma identidade nacional, é preciso forjar orgulho e unidade.

É fácil encontrar as chagas nacionais que unificam o povo brasileiro. A invasão europeia, o extermínio, a língua dos europeus, sua política, a escravidão, a monarquia, a república, as diversas ditaduras – o trabalho extenuante, o terror, a falta de liberdade. Estes são sinais inescapáveis do Brasil. Marcas que nenhuma parte do território pode apagar. E… é só isso? É só o que fazem os ricos e os “de cima” que constitui o Brasil? Existe o Brasil dos ricos e o dos pobres? Os pobres não possuem ligação cultural, linguagens próprias? As maiorias nacionais não produzem uma cultura própria?

Talvez algum incauto emocionado pudesse afirmar – o que não é nenhum crime – que sempre existiu uma cultura popular no Brasil, que se bate contra a dos de cima e que está aí pronta para a luta. E talvez este incauto esteja certo. Talvez já haja uma unidade cultural nacional dos “de baixo”, mas se existisse mesmo, talvez o povo não fosse tão cooptado e abraçado nas mesmas classes dominantes que nos maltratam tanto. Se disséssemos que existe uma única cultura nacional dos pobres, uma cultura nacional do povo trabalhador, poderíamos estar falando mais do que gostaríamos que existisse, do que das coisas tais como ela são.

Sem mais digressões – vidas diferentes devem gerar culturas diferentes. Não é possível que o pobre viva no universo cultural do rico apenas, apesar de por ele ser dominado culturalmente. Tanta dominação não impede que haja uma identidade negra no Brasil, uma identidade trabalhadora, uma identidade indígena – mesmo que estas todas guardem uma infinitude de variações e estejam em constante desdobramento e desenvolvimento, e conflito. Se houvesse uma identidade nacional que se orgulhasse de lutar, que se orgulhasse de não baixar a cabeça, de ter garra, de ter raça (em todos os bons sentidos da palavra)_, de ter “maldade” para brigar e ludibriar os adversários, e se ela se tornasse dominante ligando todos os extratos sociais explorados, penso que poucas pedras sobrariam em pé para os que há séculos maltratam os povos do Brasil.

Arrisco dizer que o futebol nos abre um caminho para isso. Arrisco dizer que o futebol é uma parte fundamental da identidade social das classes trabalhadoras no Brasil, e que ele joga um papel considerável na guerra de classes em nosso país. Pode ser apenas que as cervejas do pós-jogo estejam indo longe demais através de meus dedos.

Não posso deixar de notar, no entanto, que é por isso que, quando Richarlison defende seu colega de equipe dos ataques da mídia internacional, não se trata de birra de moleque. É demarcação de posição. Richarlison afirma: nós lutamos para sonhar, e o escárnio internacional não atribula nossos sonhos. Por isso, quando Antony dribla e “maltrata” o adversário, não se trata de escárnio ou de maldade humana – pelo contrário, é a afirmação da humanidade do brasileiro. Mostrar que sabe lutar, enganar, e vencer. Um drible maldoso de Antony é tão malicioso quanto a teimosia brasileira de continuar vivendo. Não se trata de uma pulsão de morte, mas uma pulsão de vida. Contra a miséria e a fome que dobram a alma – a beleza de um elástico entre as pernas de dois zagueiros. Contra o morticínio, a segregação, o extermínio – uma girada com a bola presa.

A identidade de um povo não é algo trivial na sua luta por libertação e igualdade. A identidade não paira sobre as dificuldades materiais e espirituais do Brasil. É através da cultura que os povos se comunicam consigo mesmos, e com os outros. É nas línguas que não são só faladas que se encontram caminhos de construção para um outro Brasil. O Brasil não fala só português – ele fala futebol.

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