Marighella 2021 – Marighella e a revolução brasileira – Parte 2

Marighella 2021 – Marighella e a revolução brasileira – Parte 2

Apesar do filme de Wagner Moura ser excelente e cumprir uma função que é muito cara para mim, o que não está nele é igualmente importante. Escrevi essa “resenha” em duas partes, porque o debate que quero apresentar aqui fugirá do filme e terá como principal base o livro em que o diretor se baseou. Se, por vezes, alguns comentários parecerem contraditórios com o que apresentei na primeira parte, é porque de fato o são. O caráter dos textos é diferente, assim como a profundidade e preocupações. Por um lado, é tarefa de todo e toda militante do movimento popular construir Marighella como herói e reivindicar seu legado, mas também é importante identificar seus erros e superar suas limitações. 

Não se trata de fazer terra arrasada sobre as experiências do passado, ou uma análise simplista de que “se não deu certo é porque estava errado”. Marighella poderia estar certíssimo em suas análises, estratégias e táticas, e ainda sim falhar em tornar vitoriosa a revolução. Não me parece o caso.

Antes, para fazer justiça aos fatos e dar os devidos créditos, um primeiro comentário: logo no começo do filme, podemos ver o diálogo de expulsão entre, Marighella – preto e Joaquim Câmara Ferreira – branco, com um membro do “partido”. O partido é obviamente o antigo PCB, organização pela qual Marighella dedicou a esmagadora maioria da vida e reivindicou até o momento de rompimento para entrar na luta armada. Mas, o “membro do partido”, representado no filme, não é uma pessoa real. Wagner Moura optou por condensar vários diálogos, fatos e acontecimentos neste personagem que carregava as posições do PCB. Quem publicou em um grande jornal de circulação, na íntegra, o discurso de Marighella durante a invasão de 1969  nas rádios foi Hermínio Sacchetta. No filme, Sacchetta teria sido tanto o militante do PCB que criticou a luta armada na década de 1960, quanto quem posteriormente decidiu contribuir quebrando a censura. Na verdade, Sacchetta era um militante trotskysta que foi expulso do PCB em 1938, com voto e anuência tanto do branco, quanto do preto, portanto, não poderia ter feito a conversa de expulsão retratada no início do filme. 

Para mim, essa inverossimilhança é digna de nota, mas não é de forma alguma um problema. Foi uma escolha do diretor que me agradou.

Me agradou principalmente pois colocou como agente importante da história o partido, e logo no começo trabalhou um dos diálogos mais importantes do filme. Era posição do Partido Comunista Brasileiro (e foi retratado no diálogo citado) que não havia condições subjetivas para “tamanha radicalidade de ações”. Era também a preocupação dos freis, retratada na cena em que eles questionam se as ações armadas teriam apoio da população. Apesar das debilidades e erros dos companheiros católicos, e do profundo desvio direitista dos camaradas do antigo PCB, a análise da falta de condições subjetivas para a tomada do poder por meio de uma pequena vanguarda armada estava correta

Não bastava (e não bastou) uma vanguarda disciplinada, corajosa e armada para derrotar a ditadura. À época, o povo brasileiro guardava mais diferenças de consciência do que semelhanças com o povo cubano, chinês e vietinamita, assim como os regimes e ditaduras que vivíamos. Para que um poderoso inimigo como a ditadura civil-militar fosse derrubado por meio de um contingente muito inferior (Marighella calculava que inicialmente a repressão, numa guerrilha eclodindo em Goiás, seria de quase 2 mil militares “armados até os dentes” para cada revolucionário), era necessário que a guerrilha gozasse de grande apoio popular e expandisse velozmente, como ocorreu em Cuba. Isso implicaria em um nível de consciência médio muito mais avançado e desenvolvido das massas brasileiras, algo que não se verificava na época e também não se verifica atualmente. Portanto, para mim, os planos guerrilheiros da ALN, VPR, PCdoB, AP, POLOP e das outras organizações guerrilheiras, não foram frustrados apenas pela forte censura, como quis acreditar Marighella. Para bom entendedor, Wagner Moura retratou muito bem essa contradição.

Mas comecemos do começo, e do mais importante.

O livro de Mário Magalhães é uma obra importantíssima de ser lida. Para quem se animar com o filme, vale a pena avançar para um estudo mais detalhado da vida do preto. Só de referências bibliográficas, entrevistas e outras fontes, são cerca de 200 páginas, o que demonstra, no mínimo, a seriedade do biógrafo em retratar com qualidade as passagens da vida e militância do biografado. Mas mesmo uma biografia carrega os vícios e posições do autor, e é preciso estudar por fora para saber ler essa importante obra. Tentarei contribuir com este processo.

Mário transparece em cada página (e fora delas) seu apoio e fascínio pela luta armada e pelos guerrilheiros – além dessa biografia, ainda escreveu outros livros sobre assuntos correlatos e organizações guerrilheiras, e prepara hoje o lançamento da biografia de Lamarca-. É uma posição louvável, que encontra (e pode encontrar ainda mais) simpatia em parte da juventude brasileira que convive com a violência cotidiana do aparato repressivo do Estado e seus braços extra-estatais e paramilitares. Mas, da maneira como afirma o autor, parece que esse apoio e fascínio se restringe à tática de luta violenta, não a todo o legado destes lutadores. Ao reforçar a importância e coragem das lutas armadas que eclodiram, o jornalista parece ansioso para demonstrar a falência dos comunistas ortodoxos que se dedicam à construção paciente de uma revolução de massas, e tece críticas rasas reproduzindo o senso comum sobre a URSS, a Internacional Comunista, o PCB, diretamente à Luiz Carlos Prestes, e muitas outras referências comunistas que se filiavam a qualquer outra análise ou tática que não da tomada do poder pela força das armas. Para leitores mais desatentos, a brevidade das passagens mais profundas mascaram o verdadeiro debate estratégico e organizativo que estava por trás das desavenças.

“Delegados de 22 países reviveram a excitação do congresso de fundação da Internacional Comunista em 1919. Se os bolcheviques haviam feito a Revolução Russa à revelia da social-democracia europeia, os cubanos em 1959 e os argelinos em 1962 chegaram lá à margem dos partidos comunistas subordinados ao Kremlin. A impressão é de que pariam uma Internacional Guerrilheira. Como ainda não existia, o PCB escapara do frio de Moscou em 1919. Não foi à calorenta Havana, em 1967, por rejeitar conspirações com cheiro de pólvora. Marighella compareceu com o status de convidado, e não de representante do partido.”

Magalhães, p.767. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

Acredito veementemente que tratar a violência como algo condenável e moralmente errado é se distanciar do povo brasileiro. É esmagadora a maioria do nosso povo que já sofreu ou convive cotidianamente com a violência, e destes, mesmo aqueles que possuem uma posição contrária à uma resposta violenta para solucionar o problema, dificilmente são dotados de moralismo ou medos iguais aos da pequena burguesia. Acredito inclusive, que Bolsonaro encontra eco e se mantém vivo, mobilizando justamente esses temas e sentimentos abandonados pela esquerda institucionalizada. A violência deve ser sempre um instrumento de luta da classe trabalhadora, e não pode ser abandonada. Mas, isso significa que é uma tática a ser usada em momentos e conjunturas adequadas. Além disso, existem muitos tipos de violência que podem ser usados pela classe trabalhadora e a juventude oprimida contra a burguesia e o aparato repressivo, não só a guerrilha. Mas uma vez que é apenas um dos instrumentos, quer dizer que a violência por si só não pode resolver todos os nossos problemas. Acredito eu que tratá-la como único instrumento, ou defendê-la de forma panfletária e pouco realista, é um erro tão grave quanto abandoná-la.

***

Vejam só, seria injusto dizer que Marighella se manteve filiado a mesma política. Mas foram muito pequenos os passos que ele deu no processo de distanciamento da estratégia etapista e direitista do PCB. Na verdade, o que ele fez foi romper com a forma de luta e organização do partido. Ele abandonou a estrutura de partido leninista – apesar de continuar se reivindicando como marxista-leninista – ao fundar a ALN, e abandonou o reboquismo tático do partido perante a burguesia, sem nunca se livrar totalmente do reboquismo estratégico. Marighella aderiu à violência, e buscou abandonar os freios que o PCB muitas vezes colocava na revolta e disposição de luta da classe trabalhadora. O que Marighella ignorava, e Mário Magalhães parece se esforçar para escantear em sua obra, é que esses freios eram fruto da mesma estratégia a qual Marighella permaneceu orbitando.


“A OLAS contornou a desinteligência com uma sacada intermediária, subscrita por Marighella: “O caráter da revolução é o da luta pela independência nacional, a emancipação das oligarquias e o caminho socialista para seu pleno desenvolvimento econômico e social”. As minudências não faziam sentido ao grosso da militância, mas a opção de Marighella abriu a ALN, fundada por comunistas, para quem não advogava uma ditadura do proletariado. O estudante Carlos Eduardo Fayal de Lyra se considerava “nacionalista e socialista”. O psiquiatra Benedicto Sampaio, “socialista e anarquista”. Uniram-se a Marighella na profissão de fé da ação como coveira do ramerrame verborrágico.”

Magalhães, p. 801. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

“A agenda da VPR prescrevia a revolução socialista, ao passo que a ALN pregava a expulsão do “imperialismo americano”, antes de expropriar a burguesia. Como anotou o estudante Carlos Eugênio Coelho da Paz, marighellista do Rio de Janeiro, “queria que me explicassem que diferença faz, na hora de assaltar um banco, se a etapa da revolução é de libertação nacional ou socialista”. O principal dirigente da VPR, Onofre Pinto, declarou ao diário cubano Granma em outubro de 1969: “Taticamente, existe uma identidade muito grande nas ações dos grupos de Lamarca e Marighella”.” 

Magalhães, p. 945. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

O grande problema do PCB não era a negação dos instrumentos de violência. Nem seu Secretário Geral, Luiz Carlos Prestes, nem a Direção do partido fizeram isso. Inclusive, Prestes dirigiu o maior levante armado da história do Brasil antes de se tornar comunista, e o PCB dirigiu o levante armado de 1935. O erro do antigo PCB foi acreditar que era preciso promover uma revolução burguesa clássica em nosso país, para assim desenvolver um capitalismo autenticamente brasileiro, sem o jugo do imperialismo. Ora, se a revolução deveria ter caráter e tarefas burguesas, como eram o caso das reformas de base, ou do desenvolvimento da indústria nacional, etc., fazia sentido que a burguesia dirigisse essas tarefas. Ao pregar a “expulsão do imperialismo americano, antes de expropriar a burguesia”, a ALN poderia muito bem tomar o poder pelas armas, mas ao tentar efetivar tarefas burguesas nacional-libertadoras sem construir instrumentos de poder para o proletariado, poderia gradualmente perde-lo para a burguesia novamente – como ocorreu em muitas experiências socialistas do século XX. Isso explica tanto o forte caráter nacionalista que o filme de Wagner Moura assumiu, e também o nome da Aliança Libertadora Nacional – ALN.

O debate do caráter da revolução, e das tarefas a serem cumpridas para o desenvolvimento e independência nacional era, e ainda deve ser, o debate central da esquerda. Hoje seguimos vendo tanto o PT, quanto PDT, PCdoB e setores do PSOL, reproduzirem semelhantes posições confusas ou anacrônicas sobre o tema.

Além do debate estratégico mais geral, há mais problemas no rompimento dos guerrilheiros com o antigo PCB. Normalmente, quando ouvimos as icônicas frases de Marighella “ninguém precisa de autorização para efetuar uma ação revolucionária” e sua versão da frase de Fidel “a tarefa do revolucionário é fazer a revolução”, não estamos cientes do seu contexto e implicações. Ao romper com as formas de luta e organização do PCB, o preto rompia também com práticas tradicionais e muito importantes do movimento comunista. Práticas como as longas e pacientes reuniões para análises conjuntura, para formações e debates estratégicos. Assim como com a forma de democracia do centralismo democrático. Mário Magalhães parece inclusive se filiar a essa nova posição de Marighella ao chamar a Internacional, URSS, PCB e Prestes de burocratas, e os discursos de Fidel de prolixos e secundários frente à ação.

A nova forma de organização da ALN trouxe avanços e retrocessos, mas foi uma experiência que deve ser de fato analisada com cuidado dentro e fora do livro. Marighella era conhecido por não reproduzir um dos grandes problemas dos comunistas de sua época, que era o machismo na forma de violência doméstica e aprisionamento das mulheres à tarefa do lar.  Assim também fez a ALN, colocando no comando uma quantidade pouco comum de mulheres: 

(…) “no Rio, as mulheres se sobressaíam. Entre suas numerosas atribuições, as senhoras transportavam armas, dinheiro e mensagens. A gênese desse núcleo fora a banida Liga Feminina da Guanabara.”

Magalhães, p.1046. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

De igual importância foi a atração dos jovens para a organização. Enquanto o PCB se mantinha à reboque da burguesia, e inerte na luta contra a ditadura (mas não imune à sua repressão), as organizações guerrilheiras recrutavam e galvanizavam os jovens que se indignavam e não viam outros horizontes de luta. O crescimento acelerado, mesmo sob dura clandestinidade, do campo de influência e aliados da ALN foi impressionante. Sou da opinião que todos aqueles que assumem o compromisso de vida de construção do novo mundo merecem igual admiração e fraternidade, mas há algo diferente quando esse compromisso de vida é confrontado constantemente pela morte. Principalmente na juventude, seduz combinar o confronto e inquietação inerentes a esse período da vida, com o combate e confronto pela construção de uma nova sociedade. Me parece próprio da juventude a radicalidade, vontade e necessidade de se sentir útil. É muito distante para o jovem pensar que ainda haverá muitos anos de militância e disposição (como teve Marighella, que com mais de 50 anos fundava a ALN, ou Prestes que já idoso rompia com o PCB e rodava o Brasil buscando rearticular e radicalizar o movimento comunista). Já diria Che Guevara: “ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. 

Da mesma forma que a juventude de hoje é seduzida pelas chamas e adrenalina das barricadas e confrontos com a polícia, ou se emociona com grandes e coloridas organizações gritando cantos radicais em uma única voz, nos anos 1960, com um PCB inerte e uma violenta repressão, a juventude reencontrava em Marighella e nas organizações guerrilheiras o farol da esperança. Mérito dos guerrilheiros, que traziam os jovens para a luta ao invés de abandoná-los no conformismo, e demérito dos demais dirigentes, que não conseguiram criar um ambiente que pudesse aproveitar o ímpeto jovem num ambiente com a responsabilidade e maturidade necessária para protegê-los da repressão e formar quadros capazes e abnegados. Os jovens na ditadura, como no caso de Carlos Eugênio Coelho da Paz – que citei acima – inverteram a ordem de importância e prioridade entre a análise e a tática adequada. Armando Boito Júnior comenta isso brevemente neste podcast, ao falar que “uma vez uma colega me falou: quem caracteriza a ditadura como fascista entende que só com a luta armada se derruba a ditadura. Quem entende que é só ditadura militar, entende que não é necessário luta armada. Eu como defendo a luta armada, defendo que a ditadura é fascista.’ Veja, tá invertida a coisa.”

Importante fazer notar esse ponto na conjuntura que vivemos. Segue pouco útil para a derrubada de Bolsonaro e a derrota do fascismo, ações isoladas e extremistas, se descoladas de um vigoroso movimento de massas. Mas qualquer organização que tendo essa análise, simplesmente frear o ímpeto jovem e exigir destes uma maturidade e paciência maior do que lhes cabe, formará quadros de gabinete, militantes covardes e pseudointelectuais pouco identificados com o povo, que na vida adulta provavelmente optarão pelo conformismo e reacionarismo.

Marighella foi para o outro extremo e optou pela pouca centralização e demasiado espontaneísmo. Apesar da grande quantidade, os assaltos a banco e “atentados terroristas” nunca foram o seu horizonte final. Tanto ele, quanto Câmara, viam a guerrilha rural como a tática adequada para tomada do poder. Mas as frases icônicas e fundantes repetidas por Marighella, deram contornos anarquistas para a sua organização. Em um primeiro momento, esses contornos anarquistas fizeram suas ações pipocarem e se multiplicarem em vários lugares do Brasil, com um rápido crescimento do seu campo de influência. Mas a longo prazo, tornou-se insustentável e findou-se com igual velocidade. 

Com todo o aparelho nacional voltado a viabilizar o surgimento da guerrilha em Goiás, Marighella viu o espontaneísmo que ele mesmo defendera inviabilizar o início da etapa rural. Com armas e aparelhos, o grupo de jovens responsável por montar a estrutura da guerrilha rural deveria permanecer fora dos radares até o momento da deflagração, mas decidiu sozinho e de forma autônoma promover uma ação de expropriação. Se expuseram, e tiveram parte da militância posteriormente presa. Atrasaram e expuseram ainda mais a ALN.

“Marighella sofreu, todavia, o revés da prisão do núcleo brasiliense da ALN no começo de 1969, abalando o projeto de guerrilha rural em Goiás”

Magalhães, p.985. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

O rompimento com as análises pacientes e ações coordenadas também cobraram seu preço, dessa vez com reconhecimento da gravidade do erro por parte de Marighella. O sequestro do embaixador norte-americano, retratado no filme, teve efeito imediato importante com o rompimento da censura, propaganda das organizações responsáveis e a libertação de vários presos. Mas se mostrou um passo maior do que as pernas da guerrilha brasileira.

“(…) Intramuros, o tom foi outro. O foco da sua crítica foi a temeridade de atiçar a ditadura na iminência do parto da guerrilha rural: “Cutucaram a onça com vara curta”, condenou. “Achava que não havia retaguarda”, contou Domingos Fernandes, do grupo de fogo carioca. Seu companheiro Carlos Fayal: “Marighella ficou chateado”. Clara Charf: “Ele estava furioso”. Zilda Xavier Pereira: “Foi contra, achou um erro”. Gilberto Belloque, do gtb: “Preocupou-se com as possíveis reações das forças repressivas, a prioridade dele era ir para o campo”. Paulo de Tarso Venceslau: “Deu uma bronca homérica na gente”. Cícero Vianna, veterano da ALN: “Ele disse ‘esse ato vai desatar a maior repressão, e nós não estamos preparados para enfrentá-la’”. Frei Oswaldo Rezende: “Pude perceber, conversando com Toledo, uma grande irritação de Marighella”.”

Magalhães, p.1121. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

Por fim, ainda cabe apresentar as próprias palavras dos camaradas de Marighella à época, sobre os efeitos que as formas anarquistas de organização acabaram por produzir na democracia interna da organização:

“Em janeiro de 1969, ele anotou: “A direção estratégica e tática global de nossa organização, ou seja, a direção política e militar unificada, não surge de uma só vez e desde o primeiro momento”. Havia “centros regionais” de comando — não um nacional — sem subordinação a algum comitê central. Como Marighella era o protagonista e inexistia um colegiado dirigente, na prática era ele quem mandava, daí o recriminaram como caudilho. Curiosa foi a reação que Cícero Vianna contou ter tido quando lhe sugeriram assinar a carta, o que ele recusou: “O Brasil precisa de um caudilho”.”

Magalhães, p.929. Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo.

Ressalto, novamente, que a ALN de Marighella teve muitos méritos. E, tanto a organização, quantos seus militantes, precisam ser reivindicados como irmãos, verdadeiros heróis que tombaram na luta pelas mesmas coisas que lutamos. Mas, precisamos nos despir das vontades e dos desejos individuais pré-estabelecidos que temos, para efetivamente construir a revolução. Todos podem querer ser os mais combativos, os mais destacados, os mais revolucionários ou qualquer outro desejo fruto do nosso tempo e subjetividade. Mas apesar da apropriação de Marighella, o sentido da frase de Fidel estava certo: a tarefa e papel de uma organização comunista é fazer a revolução. E fazer a revolução significa tomar o poder, não tomar as armas. Temos muito caminho a trilhar e não há atalhos possíveis. A impaciência não pode nos isolar das massas, distanciar das tarefas corretas ou nos fazer optar pelo caminho que nos faz sentirmos mais úteis: hoje no Brasil temos todas as condições objetivas para uma revolução, faltam as subjetivas. Falta trabalho de base e convencimento ideológico do nosso povo. 


Como acontecerá a tomada do poder no Brasil? Não sei. Mas tenho certeza que será distinto da Rússia, diferente de Cuba, de outra maneira que ocorreu no Vietnã, e assim vai. Será uma revolução socialista brasileira, com suas cores, formas e conteúdo próprio. Coisas que só ficarão claras durante o seu próprio processo de construção. 

Militante do Polo Comunista Luiz Carlos Prestes e da Juventude Comunista Avançando

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