“É o nosso filho da p***”

“É o nosso filho da p***”

Por: Giovanny Simon*

Frequentemente vejo companheiros de esquerda que compartilham uma notícia de um jornal inglês, uma capa do New York Times, ou alguma charge numa magazine francesa sobre como os gringos não gostam de Bolsonaro. E daí?! Uma visão negativa de Bolsonaro em jornal do Velho Mundo não vai mudar em absolutamente nada a nossa correlação de forças interna.

Explico: a posição política de um jornal, por mais pró-imperialista que seja, não necessariamente coincide com a teia de relações econômicas e políticas concretamente posta. O New York Times pode chamar Bolsonaro de burro, feio, e bobo, mas o grosso do capital financeiro ainda apoiar as suas políticas econômicas. Com efeito, Bolsonaro ainda é uma fortaleza do imperialismo na América Latina e uma das armas no isolamento da Venezuela. Isolar a Venezuela e reduzir a influência da China e da Rússia na região constituiu movimento fundamental na estratégia de recolonização do continente dos EUA. Com a vitória de Alberto Fernandes (Argentina), Luis Arce (Bolívia) e possivelmente de Andréz Arauz (Equador), Biden terá que contar ainda mais com Bolsonaro para continuar o plano do imperialismo de dominação da América do Sul.

Vale lembrar que até um dos presidentes menos reacionários dos EUA – Franklin Delano Roosevelt – supostamente havia declarado sobre o ditador nicaraguense, Anastasio Somoza: “Ele é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”. Isto é, independente das preferências pessoais, o elemento predominante das relações internacionais de apoio, está no interesse do capital monopolista. FDR e sua administração apoiaram o assassino Somoza porque ele protegia os interesses do capital monopolista na Nicarágua e combatia os comunistas. Fictícia ou não, essa declaração realmente resume a política externa estadunidense de apoio aos seus “assassinos de estimação”. Pode ser que Biden até considere Bolsonaro um sujeitinho desprezível. Qualquer um com bom-senso o faria. Talvez até dê uma ou outra declaração de rejeição mais dura. Mas ele vai continuar apoiando Bolsonaro enquanto este servir aos interesses do imperialismo.

Na hipótese de uma debandada do apoio do capital financeiro para Bolsonaro, pode ser que outros agentes sejam acionados pelos EUA para capitanear uma mudança de governo brasileiro com o intuito de preservar o essencial. Podem ser as Forças Armadas, pode ser a direita tradicional (centrão). O fato é que não importa como, o objetivo de Biden é garantir a execução de sua estratégia de recolonização da América Latina e do Brasil.

Das classes dominantes europeias e estadunidense, não devemos esperar (e muito menos pedir) qualquer apoio. Só podemos esperar solidariedade de nossos irmãos trabalhadores de todo o mundo. Mas para os requintados jornais burgueses, nós continuamos a ser os “pobre diabos sul-americanos, os derradeiros moicanos” a quem Belchior se referiu em uma de suas canções. Se preço da “Marcha para o Oeste” nos EUA foi o genocídio de povos nativos inteiros, não há dúvida que Biden estará disposto a pagar esse mesmo preço ao sul da fronteira. Para controlar nossas riquezas, nossas terras, nosso petróleo, nossa água, tudo bem apoiar um genocida no poder. O preço da “Marcha para o Sul” é muito barato: o que são 300 ou 400mil pobres almas brasileiras?

 

 

*É dirigente do PCLCP, assistente social, mestre em Serviço Social pela UFSC e mestre em História pela Higher School of Economics – São Petersburgo (Rússia). Coordenador do Portal e Podcast A Coluna. Autor do livre “A Têmpera da Tempestade: O partido em Lenin até 1917”.

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