A esquerda que é apátrida não está ao lado do povo

A esquerda que é apátrida não está ao lado do povo

Por: Henrique Martins

Como marxista, discordo de Hegel de que o Estado-nação moderno é o ápice do desenvolvimento da racionalidade humana. Sendo produto dos conflitos de classe, o Estado como conhecemos não é realização final de nossas capacidades, mas necessidade histórica que pode ser superada no processo de construção de uma livre associação do gênero humano para-si. Entretanto, não é no curto nem médio prazo que iremos nos livrar do aparato estatal. Já no século XIX Marx e Engels tinham clareza que por mais que o conteúdo da luta proletário-revolucionária fosse internacional, ele assumia uma forma nacional, na medida que cada proletariado deveria primeiro tomar o poder de seu país, enfrentando sua respectiva burguesia. Com o advento do imperialismo, isso se torna mais agravado, pois às dinâmicas internas do modo de produção capitalista, acrescem-se os conflitos entre imperialismo e demais Estados-nação. Num país de terceiro mundo como o Brasil, ou mais precisamente, de formação colonial que se transformou em um capitalismo de tipo dependente, a defesa da soberania nacional assume uma imperiosidade ainda mais inescapável – anti-capitalismo e anti-imperialismo devem andar necessariamente juntos.

Por isso me preocupa profundamente ver que na situação que estamos hoje, a saída encontrada por parte da esquerda brasileira seja esse manifesto “Vida acima de tudo” que, em essência, autoriza os organismos internacionais resolverem o nosso problema. Isto é, que intervenham aqui para dar um jeito em nosso governo, que sem dúvida é o mais mortal da história contra nosso povo. Mais que retrógrado e assassino, o governo Bolsonaro também é notoriamente entreguista e subserviente, material e culturalmente, aos EUA, por isso terá seu nome reservado à lata de lixo da história brasileira. Mas entreguismo não se combate com subserviência! Falar que este ou aquele órgão internacional deve fazer algo para parar Bolsonaro, mesmo que por razões humanitárias, é legitimar a validade de intervenções do imperialismo, que irá sempre agir por seus próprios interesses, e usar as desculpas que convierem. “Razões humanitárias” inclusive são comumente os principais engôdos do imperialismo para invadir e destruir os demais Estados. Hitler invadiu os Sudetos pois dizia proteger a minoria alemã em território estrangeiro; vejamos que maravilha está hoje a Líbia “libertada” de Khadafi pela intervenção “humanitária” dos EUA. Que os abutres imperialistas usem esse tipo de engôdo é enojante, mas já nos é conhecido e esperado de tais gângster. O que não podemos aceitar é que nosso próprio país, e ainda por cima sua esquerda, tome iniciativa de incitar tal tipo de movimento.

Bolsonaro precisa sim cair, e precisamente, precisa ser derrubado pelo povo, pois de qualquer outra forma, há espaço para uma reorganização do bloco de poder dominante que no melhor dos casos colocará uma liderança menos genocida em termos sanitários, mas manterá o mesmo projeto de destruição e submissão nacional a serviço do capital financeiro. Apelar às Nações Unidas e congêneres para condenar o governo brasileiro é exatamente o contrário do que precisamos. Tais órgãos não são aliados do povo brasileiro, e sim instrumentos das potências imperialistas para organizar e reger a comunidade internacional conforme seus desígnios. Nenhum desses órgãos goza da legitimidade para demover o governo que infelizmente o povo brasileiro escolheu.

Sem Estado brasileiro, não há o que a esquerda disputar para o bem de nosso povo. Defender nossa soberania nacional é tarefa que se desdobra em inúmeras direções. É não entregar nossos recursos naturais, nossas empresas estratégicas, defender nossa cultura e patrimônio imaterial e também é defender as nossas instituições públicas de ingerências internacionais. Se no passado os comunistas no Brasil se equivocaram ao crerem na possibilidade de uma aliança estratégica com uma suposta burguesia nacional, hoje não podemos “errar para o outro lado” e, ao combatermos nossos inimigos internos, buscar alianças táticas com entes externos. Não existe aliança com o imperialismo. O que há é cair nos seus joguetes de guerras de procuração, revoluções coloridas, guerras híbridas, que podem se manifestar com os discursos e intenções tanto da direita como da esquerda

Não há atalho em nossa luta (e de fato, o que este movimento anti-nacional da esquerda propõe é seria um retrocesso). O que devemos fazer é a organização do povo a partir de seus interesses mais sentidos e mostrar que o que se coloca no caminho de sua consecução é justamente o imperialismo e seus lacaios internos que ora integram o governo e dirigem as principais instituições públicas e privadas do país. É preciso almejar a organização de um bloco das forças populares, sob a hegemonia do proletariado – única classe revolucionária por excelência – de caráter anti-imperialista e por extensão anti-monopolista e anti-latifundiária, pois estes são os principais sustentáculos internos do imperialismo. Só com uma nova força política como essa, teremos condições de superar as mazelas históricas que afligem nosso Brasil.

Esquerda brasileira que não defende o Brasil também não está defendendo o povo brasileiro.

Abaixo Bolsonaro

Abaixo o imperialismo

Eia avante, brasileiros sempre avante… rumo ao socialismo!

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