A psicologia das derrotas

A psicologia das derrotas

Por: Giovanny Simon

Aqueles que acessaram esse texto procurando um aglomerado de palavras de apoio ou alguma espécie de “guia de autoajuda da esquerda”, podem se frustrar com a breve reflexão aqui realizada. A reflexão que aqui proponho é política, ideológica e organizativa sobre o porquê dos comunistas e militantes de esquerda revolucionária deverem estar alertas quanto ao curso do desenvolvimento da luta de classes e como os seus desdobramentos podem impactar o moral e a consciência ideológico-política em suas fileiras.

Os comunistas precisam sempre estar preparados para a derrota. Não por motivos derrotistas ou por um exagero pessimista. Mas por sua própria natureza como portadores de uma consciência de vanguarda do movimento. Estar preparado para a derrota é condição necessária para que se possa bater em retirada de forma organizada quando se perde uma batalha importante. Estarmos preparados para a derrota é fundamental para que não se subestime as forças dos inimigos e não tenhamos ilusões com processos políticos que são essencialmente manipulados pela ordem do capital, como eleições.

Os comunistas, para cumprirem com seu dever histórico, jamais devem se deixar embriagar por vitórias temporárias e tampouco, deixar se deprimir por derrotas igualmente passageiras. Esse é uma das questões fundamentais que diferenciam os comunistas dos demais partidos operários, segundo a visão apresentada por Marx e Engels em o Manifesto Comunista:

 “Os comunistas são, pois, na prática [praktisch], o sector mais decidido, sempre impulsionador, dos partidos operários de todos os países; na teoria, eles têm, sobre a restante massa do proletariado, a vantagem da inteligência das condições, do curso e dos resultados gerais do movimento proletário.” (Marx e Engels, 1977)

A visão do todo, desde um ponto de vista histórico, é elemento crucial para que a avaliação de uma derrota seja feita de forma ponderada e para que ela não leve ao rebentamento de tensões e de fragmentações no interior do movimento ou do partido. No discurso de Luiz Carlos Prestes na solenidade de transladação dos restos mortais de Carlos Marighella, o Velho faz uma análise política precisa sobre as táticas de luta contra a ditadura que separaram os dois comunistas:

“As vicissitudes ou a dialética da vida nos separou, nos colocou em campos diferentes ou, mesmo, política e ideologicamente opostos. Suas próprias qualidades pessoais, em particular sua valentia e combatividade, não lhe permitiram compreender ou avaliar com acerto o momento político que atravessávamos; que a classe operária, com o golpe militar reacionário e contrarrevolucionário de 1964, fora derrotada e sofrera a pior derrota, uma derrota sem luta. Estava por isso obrigada a recuar para recuperar forças. Entravamos num difícil e duro processo de acumulação de forças, tínhamos como inimigos uma ditadura militar reacionária, a mais cruel e sanguinária e que só poderia ser derrotada por um amplo e vigoroso movimento de massas.” (Prestes, 1979, grifos meus)

Esse pensamento, que Prestes divulgaria frequentemente nos seus últimos anos, demonstra o peso da derrota de 1964 e como a ditadura fascista, que tinha como um dos grandes objetivos liquidar o PCB, estava avançando na liquidação física e ideológica de seus quadros. A gravidade de uma derrota sem luta se torna mais grave porque o seu resultado demonstra a impotência dos derrotados, que não puderam nem sequer reagir. Ela afeta o moral de forma profunda porque evidencia as debilidades políticas, ideológicas e organizativas dos derrotados. No caso de 1964, ela escancarou a confiança exagerada no “aparato militar de Jango” que supostamente preveniria qualquer golpe, quando na verdade a conspiração golpista, já estava dando passos largos nas FFAA. A pior das derrotas desatou reflexões distintas no interior do PCB que acabou com diversas cisões sobre como enfrentar a Ditadura, levando o partido à completa deformação em no final dos anos 1970 e início de 1980.

Depois da derrota da Revolução de 1905 que fez o Partido Social-Democrata Russo (POSDR) conviver com uma situação semi-legalidade até a vitória da contrarrevolução já praticamente consolidada em 1907, Lenin faz um diagnóstico preciso a partir do surgimento da tendência chamada liquidacionista em 1909:

“Um ano de desagregação, um ano de confusão política e ideológica, um ano de extravio do partido está para trás de nós. O número de membros de todas as organizações do partido baixou, algumas — precisamente as que tinham menos proletários — desagregaram-se. As instituições semilegais do partido criadas pela revolução sofreram fracasso sobre fracasso. Chegou-se a um ponto em que alguns elementos do partido, sob a influência da desagregação, se interrogaram sobre se se devia manter o partido social-democrata tal como era antes, se se devia continuar a sua obra, se se devia passar outra vez à clandestinidade e como o fazer; a esta questão a direita extrema deu uma resposta no sentido da legalização a qualquer preço, mesmo ao preço da renúncia aberta ao programa, à táctica e à organização do partido (a chamada corrente liquidacionista). A crise foi indubitavelmente não apenas organizativa, mas também ideológico-política.”  (No Caminho, Lenin 1977, grifos meus).

Lenin avalia que o impacto da derrota foi tão grande no âmbito ideológico-político como do ponto de vista militar-organizacional. Ou seja, a experiência da derrota fez ascender uma dúvida nas fileiras dos membros do partido questionando princípios fundamentais da revolução, do programa e da validade do partido revolucionário. O moral de parte dos revolucionários russos foi substancialmente afetada.  Lenin chega à conclusão que apesar da confusão e da desagregação terem se espalhado, esse processo produziu uma depuração. Para ele, os elementos que se afastaram eram elementos vacilantes, pequeno-burgueses que haviam embarcado na luta do proletariado com a esperança de uma vitória rápida de uma revolução burguesa.

O filósofo Domenico Losurdo defendia que a derrota da União Soviética foi para o movimento comunista mundial uma “hecatombe ideológica” da qual ainda não conseguimos nos recuperar. Em seu livro “Fuga da História?”, Losurdo (2004) argumenta que além dos mitos apologéticos criados pelo imperialismo que são absorvidos acriticamente pela militância de esquerda (como a categoria totalitarismo, por exemplo), outros movimentos ocorreram no interior do movimento comunista, como busca pelo “Marx autêntico”, criando um secto de puristas idealizadores do socialismo. Outra tendência foi a de um martírio voluntário, tomando para si as imposições ideológicas do inimigo como verdade e pressuposto.

Derrotas em batalhas de maior ou menor importância têm impactos distintos. Os elementos oportunistas, que podem existir em qualquer partido, tendem a utilizar a derrota como justificativa para que se recue ideologicamente e se rebaixe o programa. Quase sempre, esses elementos começam a insinuar a necessidade de se fazer alianças fora do espectro da esquerda, apregoam que a “radicalidade” deve ser deixada de lado. Não é por acaso que o debate da “Frente Ampla” contra Bolsonaro, que incluiria inimigos da classe trabalhadora como Rodrigo Maia, voltam em momentos em que a esquerda sofre derrotas. Diante de uma derrota, o primeiro impulso dos oportunistas é se jogar aos braços das frações de direita ditas “moderadas”, procurar acordos e conciliação.

Expus esses elementos para defender que os comunistas e às forças de esquerda em geral, se preparem para a derrota não apenas política, mas moral. Pois essa derrota pode ter impactos mais profundos, negativos e duradouros que desmantelamentos organizacionais.

Uma derrota pode ter um impacto grande na psicologia do indivíduo que sabe que é singularmente finito. Uma derrota política de peso cria a sensação de perpetuidade na medida em seus impactos podem persistir por longas fatias de tempo, ou até pelo resto de suas vidas. Por isso, para que estejamos mentalmente preparados para a derrota é preciso construir uma consciência histórica, que consiga compreender que os processos políticos que vivemos transcendem largamente o espectro de uma vida singular. Há três principais fontes desta consciência: uma é o marxismo, que como ciência viva do proletariado permite compreender as contradições da história e do todo da sociedade para além do sujeito individual; outra é a experiência com as lutas do povo, que demonstram os vais e vens dos trabalhadores, semeando a ideia de que nenhuma derrota do proletariado, ainda que dura, é permanente; e, por último, a convicção: talvez o elemento menos puramente racional porque se imbrica com escolhas de vida e encontra suas raízes nos seus impulsos psíquicos mais íntimos. Naturalmente, a convicção é frágil quando desprovida de experiência e conhecimento téorico-político, e tende a se tornar um idealismo romântico. Mas ela pode ter um papel decisivo numa derrota que leva o indivíduo a perseverar o estudo e a prática para entender seus próximos passos, ao invés daqueles que vão se refugiar em algum gueto da teoria ou do administrativismo político.

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