O atentado ao Irã e os limites absolutos da relação entre Estado e capital

O atentado ao Irã e os limites absolutos da relação entre Estado e capital

Via: Juventude Comunista Avançando

Na madrugada de sexta-feira, um atentado terrorista promovido pelos Estados Unidos em Bagdad assassinou o general iraniano da Força Revolucionária da Guarda Quds, Qasem Soleimani, e o do vice-presidente das Milícias Xiitas do Iraque,  Abu Mahdi Al-Mohandes. Soleinami foi uma figura central no combate às forças do Daesh (ISIS/ Estado Islâmico) no Iraque, livrando o país da dominação do grupo em 2017, após uma coalizão formada entre o Iraque, Irã e EUA.

Após a derrota do Daesh, a Casa Branca exigiu a saída das forças militares iranianas do Iraque, o que nem Soleinami e nem Al- Mohandes concordaram. Os impulsos imperialistas dos Estados Unidos levaram o país ao fortalecimento da Tur quia, governada por Recep Tayip Erdogan, – na geopolítica do oriente médio, em direto conflito com os interesses do Iraque e do Irã. O general Soleimani era visto em seu país como um grande herói de guerra devido sua atuação militar em prol dos interesses nacionais do Irã frente aos terroristas do Daesh. Sua morte causou protestos nessa sexta e no sábado no Irã, Iraque, Líbano, Palestina e até na Índia. Enquanto Donald Trump se orgulha do atentado, o governo iraniano afirmou que revidará a ação promovida pelo exército estadunidense e, para isso, já recebeu apoio público da China e da Rússia.

Como 15ª economia mundial e uma das quatro maiores potências do Oriente Médio, a nação persa sempre teve peso nos conflitos da região e as relações com os Estados Unidos variaram durante a história do país. Após realizarem uma revolução nacional instaurando uma república islâmica teocrática, o país defende um projeto econômico nacionalista, além de ter uma política externa bastante influente e considerável poder militar – em 2018, o país investiu 6,3 bilhões de dólares em defesa. Assim, a nação iraniana tem sido um obstáculo aos interesses imperialistas dos EUA no Oriente Médio há décadas, também por isso, é vítima de sanções há cerca de 30 anos. Recentemente, o governo Trump rompeu com o Pacto Nuclear assinado em 2015 com Irã, Rússia, China, Alemanha, França e Reino Unido, e instituiu novas sanções às exportações de petróleo iranianas, buscando atacar o principal produto do país.

O Irã é o sétimo maior produtor petrolífero fazendo parte da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Em novembro de 2019, anunciaram a descoberta de um novo campo do óleo, o que levou os EUA a instituir novas sanções que já causam uma alta inflacionária e levaram o presidente Hassán Rouhani a abandonar compromissos assinados pelo pacto nuclear e voltar a enriquecer urânio. Além de ser uma medida de defesa, o chefe de Estado também tentava pressionar a União Europeia para ativar mecanismos financeiros que permitissem evacuar a produção petroleira nacional.

É bastante provável que o bombardeio estadunidense tenha como um de seus objetivos a promoção da figura de Trump como um protetor da soberania de sua nação a partir do início de uma guerra local com o Irã garantindo assim maiores chances de reeleição do presidente nas eleições a serem realizadas ao final do ano, além de conseguir apoio para barrar o impeachment que já foi aprovado pela Câmara de Representantes. Além disso, a fragilização do Irã na geopolítica do Oriente Médio significará maiores possibilidades de avanço do domínio político e militar hegemônico dos EUA na região.

O aparato estatal estadunidense, exercendo sua função de máquina de guerra imperialista sobre o Irã, garantirá um impulso à reprodução de seus monopólios, principalmente do setor petrolífero (das 15 maiores empresas de petróleo do mundo, cinco são estadunidenses). O conflito com o Irã, assim como todos os outros que assistimos sob a dominação do capital, será sinônimo de uma enorme barbárie genocida e ecocida.

A situação que se encontra o Irã hoje é exemplo da ativação de um limite absoluto do capital referente à contradição entre o capital transnacional e os Estados nacionais, pois a tendência monopolista do capital de colocar cada canto da terra sob o domínio de uma minoria de competidores privados se choca inevitavelmente com a forma dos Estados nacionais. O capital para continuar sua reprodução deve invadir e sugar as riquezas desses Estados, que ao tentarem se proteger da dominação, sofrem retaliações políticas, econômicas e militares das nações  imperialistas, sendo a guerra o resultado frequente dessa lógica.                                                

Vivemos sob a égide de uma crise estrutural do capital onde os limites absolutos do nosso sistema são ativados fazendo com que o capitalismo se mostre cada vez mais como uma força destrutiva e necessitada de superação por uma alternativa socialista. Um desses limites se refere à relação cada vez mais contraditória e destrutiva entre os capitais transnacionais e os diversos Estados, que nos ajuda a entender uma das determinações fundamentais dos conflitos entre as nações dominantes do capitalismo central, neste caso, fundamentalmente os Estados Unidos e os países do Oriente Médio.                                                                     

É importante ressaltar que o capital possui um funcionamento totalmente irracional por ser orientado pela busca de sua acumulação e expansão a todo custo. A concentração e acumulação de capital impele o capitalismo à formação de monopólios. Na sua expressão monopolista, a base da configuração sistêmica do capitalismo está assentada nas grandes corporações privadas transnacionais que competem entre si para firmar seus interesses individuais cada vez mais expansionistas, fundando uma contradição intransponível e cada vez mais problemática do capital entre os monopólios e a competição, pois cada interesse corporativo buscará firmar seu monopólio em detrimento do outro, levando a uma destrutiva competição entre as grandes empresas.

A vigência da competição monopolista pode seguir seus rumos sem atingir seus limites absolutos enquanto houver a possibilidade de expansão do sistema sobre o mundo. Porém, na nossa atual fase histórica, o capital esgotou suas possibilidades de expansão, impelindo-o a uma luta competitiva e fratricida em territórios já dominados. Na tentativa de cada monopólio se fazer vencer perante o outro, a destruição se torna endêmica e estruturante do funcionamento do sistema.

No nível internacional, o Estado assume o papel de grande e fundamental mediador entre as  empresas transnacionais de seu território e o mercado mundial, passando a competição entre capitais a ser a competição entre os Estados nesse cenário. Segundo István Mészáros, “os representantes das seções mais poderosas do capital compreendem que não estão em posição de dispensar a proteção oferecida por seus Estados nacionais aos seus interesses vitais”. Assim, os capitais transnacionais se utilizam das estruturas de seus Estados para dominarem outros Estados, parasitando seus capitais para que eles possam expandir sua acumulação, sendo determinante nesse processo as relações de poder, dominação e dependência estabelecidas das partes envolvidas. A infiltração dos capitais transnacionais pode se dar de diversas formas, desde a cooptação de governos até a invasão militar pelos exércitos dos Estados representantes desses capitais, como tem sido a prática corrente nos países do Oriente Médio.

Observamos historicamente que os países que tentam resistir à dominação imperialista dos Estados do capitalismo central com medidas econômicas, políticas e militares protecionistas ou nacionalistas são repreendidas com retaliações econômicas e militares severas que se legitimam em discursos hegemônicos baseados em princípios vazios de “soberania nacional” e “defesa das liberdades democráticas”, os quais só valem à nação dominadora, nunca verdadeiramente ameaçada, e não à nação sujeita ao imperialismo.      

Fica evidente a necessidade de superação do atual modo de produção que só poderá replicar e multiplicar essas guerras em todo o mundo, causando mais destruição, devastação ambiental e morte de milhões de vidas humanas. Precisamos organizar o internacionalismo proletário com uma proposta verdadeiramente emancipadora de construção do socialismo mundial para destruir a espinha dorsal do sistema capitalista, fortalecendo a luta dos povos em resistência às potências imperialistas atuais. Todo apoio ao povo iraniano e iraquiano nesse momento de ofensiva estadunidense contra a autodeterminação de seus povos.

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