O Currículo dos cursos de Geografia na disputa por uma universidade popular
Nós, geógrafos e geógrafas, devemos nos perguntar qual é a formação que nós queremos: uma que sirva às grandes empresas, ou que esteja vinculada e comprometida com a solução dos grandes problemas do povo dentro do nosso território? Este problema, muito atual, é o mesmo que foi colocado para os geógrafos de cinquenta anos atrás que, em plena ditadura empresarial-militar, atuaram para transformar a geografia numa ferramenta de luta. Antes de uma sucessão de “correntes teóricas” ou “fases”, a história da geografia é a história de disputas entre as classes.
A ditadura empresarial-militar não buscou acabar com os cursos de Geografia no Brasil. Ao contrário, ela dedicou máxima atenção ao IBGE; plantou quadros ligados ao regime nos departamentos de Geografia. Sabotou a contratação de docentes progressistas nesses cursos, perseguiu alunos democratas e comunistas. E disputou com máxima intensidade a produção teórica desses institutos, com um único objetivo: transformar a Geografia numa ferramenta de controle do povo brasileiro pelo fascismo. Nas escolas, com a Reforma Educacional em 1971, o arrocho salarial a docentes e a perseguição ideológica nos currículos (como, por exemplo, com a instauração da disciplina de “estudos sociais”, à revelia de história e geografia) se tornaram cotidiano.
Como nos ensinou Diamantino Santos, em relato ao Boletim Paulista de Geografia (vol. 1, n. 88, 2008), o sucesso do movimento que resulta na chamada “geografia crítica” não se deu só por um discurso revolucionário. Mas, sobretudo, porque respondia aos interesses profundos dessa categoria profissional. Mais do que uma resposta teórica, aqueles estudos apresentavam soluções ao controle dos currículos universitários e escolares, à produção de materiais didáticos, etc, representando o ponto de vista da luta contra o regime. Não por acaso, o sucesso do III Encontro Nacional de Geógrafos em Fortaleza, marca fundamental da Geografia contemporânea, se deu com uma participação massiva de professores do ensino básico.
Muito se pode dizer e ponderar sobre a geografia que resulta desse movimento, dos maiores elogios às mais duras críticas. O que pontuamos aqui é algo simples: essa herança de 1978, o movimento que deu origem à Geografia que praticamos, que compõe nossos currículos, nossos departamentos e nossos cotidianos, foi antes de tudo uma aposta no povo. Uma aposta de que, estando junto com o povo, a Geografia se enriqueceria, lado a lado com ele, e ajudaria ele a lutar contra seus algozes.
Por isso mesmo, ainda, se hoje ostentamos uma tradição “crítica” em nossa geografia, isto não é algo dado, muito menos permanente. É um esforço contínuo de não ficarmos à margem da luta de classes, de incluir em nossa formação e em nossos currículos um projeto de país e de universidade ao lado do povo, que contribua com o combate ao fascismo e o poder dos monopólios, latifúndios e imperialismo. É um esforço de estarmos à altura das tarefas históricas que nos são colocadas, como cientistas, intelectuais, professores, estudantes, trabalhadores!
O papel da universidade na sociedade de classes
As universidades não estão acima das classes. Longe de uma “bolha”, um “mundo para si” elas estão imersas numa sociedade que, política, social, cultural e economicamente dita seus rumos, ritmos, disputa quem entra e permanece, sua produção e a apropriação do conhecimento produzido. São verdadeiras instituições-chave da sociedade: no Brasil, responsáveis por quase toda a produção técnica e científica do país.
Os ataques fascistizantes, obscurantistas, anti-científicos e irracionalistas contra a universidade, invasões terroristas e campanhas de difamação coordenadas por parlamentares fascistas são, por isso, face de uma disputa aberta da burguesia brasileira sobre a universidade, com a intenção de submeter essas instituições aos seus interesses. Essa disputa aparece igualmente na colaboração de reitores diversos com os interesses das classes dominantes na aplicação de práticas antissindicais e da política que representa o interesse de poucos. Na mesma toada está a perseguição, desde 2015/16, a reitores que se posicionaram contra o golpe parlamentar, em defesa dos interesses da maioria.
Mas mais do que ataques espaçados, os poderosos têm um projeto para a universidade. A incorporação, desde os anos 1990, de diversas exigências do Banco Mundial e do FMI para a educação superior, a criação das fundações ditas de apoio, a atuação de grupos empresariais, think tanks e outros aparelhos privados de hegemonia, seja diretamente nas universidades, seja através da pressão interna e externa ao MEC e MCTI, seja disputando a opinião pública, são parte constituinte deste projeto. É a função social da universidade que está em disputa. E o que assistimos hoje, portanto, é uma completa refuncionalização da universidade; o sonho realizado da ditadura empresarial-militar: a transformação dela, em sua função e orientação, para submeter-se aos interesses particulares e mesquinhos das elites, que visam não a produção de ciência “desinteressada”, menos ainda para ajudar o povo na luta contra a opressão, mas para lucrar e manter de pé a exploração do trabalho.
Através dos motes de “inovação” e “empreendedorismo”, laboratórios e escritórios são associados unilateralmente a empresas. Espaços físicos são tomados por “hubs” empresariais e por bancos. As pró-reitorias deixam de ser “de pesquisa”, e passam a ser “de pesquisa e inovação”. A progressão na carreira passa a ser balizada por critérios empresariais. As políticas de permanência estudantil passam a poder receber financiamento privado. Reformas curriculares são ditadas de cima para baixo, desde a reitoria, chefias ou direções de instituto, às vezes pelo assédio empresarial.
Mas se a burguesia tem projeto para a universidade brasileira, nós também temos! A busca científica pela verdade1, comprometida com os anseios, necessidades e demandas do povo brasileiro é tarefa urgente de todas as categorias universitárias. Para isso, temos que disputar a universidade em suas formas de ingresso, permanência, na democratização de suas instâncias internas, e sobretudo na disputa do sentido, orientação e apropriação do conhecimento produzido pela universidade. Uma universidade comprometida com o seu povo é uma universidade que se abre aos seus anseios e se vincula aos movimentos sociais e suas entidades representativas. É uma universidade popular: que se construa pelo povo, para o povo e com o povo. Para que a universidade brasileira se transforme em uma trincheira das lutas proletárias e populares, que abra caminho para o socialismo!
Popularizar os currículos, pôr a geografia a serviço do povo!
Os ataques que a geografia sofre hoje remontam aos tempos da ditadura. A proposta de reforma das Diretrizes Curriculares Nacionais em Geografia, desde 2020, busca explodir os cursos de geografia e criar cursos “tecnólogos”, em separado do bacharelado.
Engana-se quem acredita que é algo simples como “separar o técnico do pesquisador”. Ao separar institucionalmente essas formações, a janela que se abre é a de que, cada vez mais, grandes empresas, mineradoras, latifúndios e firmas de geomarketing passem a fazer parte do dia a dia dos geógrafos, a partir dos tecnólogos. Não se trata aqui de parcerias pontuais, ou mesmo de empresas transformarem em produtos a ciência de base produzida na universidade. É um controle completo do processo científico, do começo ao fim, orientado pelos interesses particularistas de gerar lucro, independendo do que disserem as pesquisas realizadas em cada departamento. Toda a formação técnica precisa ser pensada e realizada em conjunto com a formação do geógrafo, não como se fossem coisas em separado. Ao sequestrarem a formação técnica, sequestram junto o conjunto da formação geográfica. É necessário rechaçar não só essa tentativa de reforma, mas todas as políticas congêneres que incentivem a fragmentação dos cursos.
A luta de cada estudante por melhor formação técnica e profissional, a geomorfologia, a pedologia e o planejamento é justa, porque estes são instrumentos do geógrafo na sua interação com o mundo. Esta formação não precisa se dar necessariamente atrelada aos interesses da classe dominante. Mais: é papel da universidade garantir que a experimentação prática dos geógrafos não esteja restrita ao ambiente empresarial. O povo brasileiro se beneficiaria e muito de projetos que aproximassem a universidade e o movimento popular, produzindo cartografia participativa, modelos de previsão de riscos geomorfológicos, contribuindo na prevenção e adaptação contra mudanças climáticas, marchando lado a lado com o movimento de moradia e a luta pela terra.
Um currículo comprometido com os verdadeiros problemas nacionais, os problemas da maioria do povo, deve ter: um projeto de país, um projeto de universidade, e um projeto de geografia. Essa vinculação tem de se dar necessariamente na prática, garantindo aos geógrafos uma formação integral. Os geógrafos comprometidos com a luta do povo precisam tomar em mãos as ferramentas para formar na prática os próximos profissionais. Construir ferramentas estruturais e permanentes em cada curso para garantir uma formação integral: teórica, política e técnica! E quanto mais distante a universidade estiver do povo, mais exposta estará a ataques do obscurantismo, do irracionalismo e do fascismo.
Os trabalhos de campo são um exemplo de ferramenta já presente no conjunto dos cursos de Geografia, e que pode ser aprofundada para estreitar estes laços entre a formação profissional e a luta política. Sem campo, não há geografia: é com os pés no chão que o geógrafo conhece o território, os lugares, a região e a paisagem. Que ele entende a espacialidade dos fenômenos, sua concretude, suas escalas.
E se os trabalhos de campo sofrem ataques de norte a sul do país, devemos nos perguntar: a quem interessa a precarização dos trabalhos de campo? Qual é a geografia que esses sujeitos defendem? A quem interessa uma geografia apassivada? Os grupos empresariais, petroleiras, mineradoras e empresas de geomarketing não têm interesse em formar geógrafos vinculados às necessidades dos “de baixo”. Seu interesse está em formar tecnocratas; em sequestrar nossa formação técnica e integrar à geografia nacional os valores do mercado, normalmente sob as bandeiras da “inovação” e do “empreendedorismo”.
Por outro lado, os campos não são extensão, e nem podem ser tratados como tal, sob a pena de se descaracterizar as duas coisas. Mesmo assim, os campos podem deixar de ser apenas “atividades isoladas” e criarem, cada vez mais, um trabalho prolongado e permanente com o povo. Uma forma de fazer isso é utilizando-se das Práticas como Componente Curricular (PCC). Esse componente, presente em tantos projetos político-pedagógicos de nossos cursos país afora, mais do que letra morta, pode ser mobilizado e tensionado por docentes e estudantes para que as disciplinas ministradas nos cursos de Geografia dediquem horas de docência, trabalhos e avaliações para atividades de formação prática – para que as avaliações, inclusive, não sejam só exercícios teóricos, mas coloquem o conhecimento teórico, político e técnico, acumulado histórica e coletivamente, a serviço do nosso povo. Uma ferramenta desta incentiva a produção de trabalhos e pesquisas em conjunto com as comunidades, e subsidia atividades políticas e extensionistas em cada lugar.
Também podem servir de subsídio para trabalhos extensionistas que surjam em cada curso. A extensão, nesse sentido, precisa ser uma ponte entre a produção científica, teórica e técnica, dos departamentos com os movimentos sociais. Por que, ao invés de Empresas Júnior, que põem nosso trabalho não remunerado na mão de empresas a troco de “horas”, não desenvolvemos Escritórios Modelo, aos moldes de diversos cursos de Arquitetura e Urbanismo, geridos coletivamente, com financiamento público, construindo política com o movimento de moradia, pelo direito à cidade, com o MST e com os movimentos pela reforma agrária? Por que não produzirmos, a partir desse lugar, trabalhos de campo junto a escolas públicas, aprofundando os laços entre a universidade e os profissionais de geografia, no seu espaço de trabalho, convívio e luta política e sindical?
Nesse sentido, a curricularização da extensão deve ser incentivada e tensionada pelas três categorias da universidade para que toda a atividade extensionista se vincule aos movimentos sociais, explorados e oprimidos da nossa terra, no campo, na cidade e nas florestas: para que se torne extensão popular.
Sem clareza sobre quais são os objetivos da extensão e a quem se destina, os representantes do capital dentro das universidades vão abocanhar para eles a extensão. Os hubs de inovação, as empresas juniores, as start-ups, são todas elaboradas sob o chapéu da extensão, mas trata-se de uma falsa extensão. A extensão mercadológica não é capaz de devolver à sociedade a sua produção, pois não se interessa pelos problemas da maioria, mas com os de meia dúzia!
E o que vale para os bacharelados, vale para a licenciatura. A separação entre professores, de um lado, e pesquisadores do outro só enfraquece a ciência geográfica, assim como a já citada divisão entre bacharéis e técnicos. E a enfraquece porque é falsa: o professor é, antes de tudo, um geógrafo, profissional capacitado e conhecedor da geografia, seus métodos de investigação e suas atribuições.
A história nos mostrou a importância dos professores de geografia na construção de uma ciência democrática, progressista, capaz de se aliar com o povo, desde a década de 1970. São, antes de tudo, proletários, parte do povo. As lutas docentes, políticas e econômicas, são parte constituinte das lutas populares no Brasil. E, em meio a uma onda de ataques à juventude, de tensões na direção do fechamento do regime no Brasil, de regressões democráticas profundas, da repressão exemplar ao movimento popular: os currículos escolares e o cotidiano escolar são fundamentais para colocar um basta a esse projeto anti-povo.
Assim como fizemos na ditadura, o embate científico e ideológico nos currículos escolares pode ser também uma ferramenta para vincular a escola e a geografia às lutas do povo brasileiro, partindo de uma das maiores categorias profissionais do Brasil. Isto não é pouco. As reformas curriculares em licenciaturas, nesse sentido, não podem ser simplesmente cegas submissões à BNCC, aderindo acriticamente às suas colocações. Elas devem ser construídas mediante as necessidades de cada curso, de modo a formar profissionais capazes de atuar, dentro das escolas, como tribunos do povo, defendendo seus interesses e construindo pontes entre a ciência geográfica, a universidade, a escola e as lutas populares.
Separar o bacharelado da licenciatura se baseia e reforça uma pobre dicotomia: a licenciatura é secundária, atrasada; o bacharel, moderno, onde podem se colocar as empresas. É mais uma forma, portanto, de afastar o geógrafo de sua formação política, e concentrá-la em meios empresariais. Lutamos pela dupla-titulação em todos os cursos! Para mantê-la onde já existe, e criá-las onde não há!
Companheiros! Todos estes elementos servem para mostrar o seguinte: os currículos são instrumentos-guia da atuação dos nossos departamentos. Eles orientam todo o curso, as disciplinas, os estudantes, os professores, na direção não só da geografia que queremos, mas do país que queremos. Eles têm o poder de situar um departamento frente às tarefas históricas colocadas – hoje, a luta contra a autocracia, o fascismo, por uma universidade do povo, para o povo. Disciplinas específicas sobre extensão, que discutam seu papel, as formas de construí-las; disciplinas sobre trabalho de campo, com capacitação técnica do estudante, aproximando-o do território e abrindo espaço para a construção de trabalho político; disciplinas sobre a Formação Social e Territorial do Brasil: tudo isso potencializa o currículo na direção dos interesses não dos poderosos, mas do povo.
E, para cumprirem, não podem ser letra morta. A diferença entre uma lista de desejos e um currículo real, capaz de coesionar os profissionais de um curso é a luta!
Convidamos todes a participar do Espaço de Socialização de Coletivos (ESC) de mesmo nome que o texto acima “O Currículo dos cursos de Geografia na disputa por uma universidade popular” que acontecerá no XXI Encontro Nacional de Geógrafas e Geógrafos, no dia 22 de julho de 2026, na sala 21 do PAF I da UFBA – Campus Ondina. Vem debater a universidade que queremos: feita pelo povo e para o povo!
- LEHER, Roberto. Autoritarismo contra a universidade: o desafio de popularizar a defesa da educação pública. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Rosa Luxemburgo, 2019.
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