Organizar a universidade contra o fascismo – combater o clientelismo fisiológico e o privatismo na UFSC!

Organizar a universidade contra o fascismo – combater o clientelismo fisiológico e o privatismo na UFSC!

A Universidade é uma das instituições-chave da sociedade, seja na produção do conhecimento ou na formação dos quadros técnico-políticos. Como tal, é um campo de disputas e de reprodução das contradições sociais – tem autonomia para contribuir com a transformação da sociedade, mas é permeada e marcada pelo domínio das classes dominantes. Neste momento histórico, uma das contradições do capitalismo se revela no problema orçamentário das universidades públicas: seguindo a lógica do sucateamento e da desmoralização dos serviços e instrumentos de poder público, as elites buscam abrir ainda mais espaço para as investidas privatistas, para que as instituições estejam cada vez mais ligadas financeira e ideologicamente ao acúmulo de capitais privados e ao desenvolvimento de nossa dependência econômica e política, como nação, do imperialismo.

Em síntese, disputar a universidade, a partir de nossa perspectiva, não é apenas garantir orçamento público suficiente para que os estudantes tenham livre acesso e condições de permanência, mas também trata-se de travar a luta para que o ensino, a pesquisa, a extensão, a arte e tudo o que aqui produzimos esteja a serviço dos interesses do povo. Diante desta compreensão, participamos deste processo eleitoral com o objetivo explícito de disputar os rumos da Universidade, visando à transformação social e à construção de um projeto conectado aos anseios populares e com capacidade efetiva de mobilização para sua realização.

Construímos a gestão Universidade Presente (2022-atual) até onde foi possível, porém, diante de diversas traições programáticas e de conduções políticas antidemocráticas, nos vimos obrigados a reconstruir o grupo de apoio que elegeu Irineu e rediscutir os rumos de nosso movimento. Entendemos que uma gestão tem que ter respeito e comprometimento ao projeto a que se propôs, mas identificamos a falta de princípios fundamentais do projeto “Universidade Presente” no desdobrar da condução de Irineu e seu grupo: planejamento político e construção democrática e coletiva junto à comunidade. No decorrer da última gestão, a condução das decisões foi centralizada na figura do Reitor, assumindo uma postura quase sempre impermeável aos espaços colegiados de decisão da gestão. O projeto que se construiu na prática foi personalista e sem princípios, fazendo alianças com qualquer setor, impondo figuras alienígenas ao processo de construção da chapa eleita em cargos fundamentais, distribuindo cargos como moeda de troca com as oligarquias mais tradicionais do estado e utilizando a “máquina” de forma clientelista com o objetivo de permanecer reitor.  Por isso mesmo, cobramos em diversas oportunidades que o reitor chamasse os mesmos apoiadores que o elegeram a construir e decidir o sentido geral de sua gestão de forma democrática. Não poupamos esforços na disputa interna e na denúncia enquanto movimento universitário, em apontar os inimigos do projeto apresentado à comunidade e eleito nas urnas – desde a composição surpreendente do gabinete aos “cafezinhos deliberativos”, método preferido de discussão do reitor, organizados por Irineu com figuras conflitantes aos interesses do povo, que asseguraram influências e pressões negativas na gestão.

Após sermos surpreendidos pelas informações sobre sua articulação com setores distintos daqueles que o elegeram, bem como pelo anúncio de sua candidatura à reeleição pela imprensa – sem qualquer debate coletivo interno –, reanimamos o Fórum que elegeu a gestão de 2022 com o objetivo de discutir a sua continuidade. A resposta do reitor, contudo, não se limitou à recusa de seu comparecimento, mas também à desautorização da participação dos membros da própria gestão. 

A nossa iniciativa em reconstruir um fórum de articulação partiu do diagnóstico das tendências personalistas, da ambição cada vez maior para a reeleição a qualquer custo, e os contínuos acenos de Irineu para setores ainda mais ligados à maçonaria e à extrema-direita, como os professores Moretti e Fabrício do CCS. Na ocasião, consideramos fundamental arregimentar as forças de esquerda na universidade e isolar os elementos vinculados aos interesses da classe dominante da gestão. Reforçamos: o professor Irineu foi reiteradamente chamado às plenárias do Fórum, mas optou por não construí-lo. Com o transcorrer dos tensionamentos, após significativas disputas dos rumos da UFSC frustradas pela condução do reitor e de seu grupo, houve uma cisão que foi expressa na demissão de pessoas vinculadas ao grupo crítico às práticas personalistas e responsável por significativa parte dos feitos mais relevantes na política universitária recente –  incluindo aí, entre outros, a nossa militância. A partir disso, passamos a construir a possibilidade de uma chapa que representasse um programa mais avançado para a universidade.

Reconhecemos que a gestão “Universidade Presente” promoveu importantes avanços para a universidade. Avançamos em construir compromisso institucional de enfrentamento a todas as formas de opressão, com a aprovação de políticas voltadas ao enfrentamento ao racismo institucional e à violência de gênero, além da implementação de cotas para pessoas trans no acesso à universidade e cotas raciais nos concursos docentes. Também consideramos relevante não termos tido retrocessos nas políticas de permanência estudantil diante de uma conjuntura orçamentária asfixiante, a exemplo da manutenção do RU a R$1,50, e mesmo do avanço que significou reajustar e equiparar as bolsas da instituição para o valor de setecentos reais, coerente com o reajuste nacional. Somam-se a isso conquistas alcançadas a partir da forte mobilização da comunidade acadêmica e a pressão ao gabinete e à administração central, como a retomada das recomendações da Comissão da Memória e Verdade e a aprovação da renomeação do campus Trindade, livrando-nos da homenagem ao capacho da ditadura Ferreira Lima – tal episódio foi um feito histórico e de afirmação dos valores democráticos da universidade.

Reivindicamos esses avanços sobretudo pela atuação de membros da gestão que hoje compõem o grupo “Conhecer é Transformar”, que tanto dentro da gestão quanto, em grande medida, fora dela, tiveram frequentemente que lidar com o desinteresse e os entraves postos pelo atual reitor e pelas pró-reitorias a ele alinhadas. Esta prática ficou visível nas inúmeras vezes em que o movimento universitário confrontou a reitoria legitimamente e pouco teve respostas, sendo na maioria das vezes recebido pela então vice-reitora, dada a omissão, falta de liderança e de firmeza política do reitor. Esse histórico nos leva ao entendimento de que mesmo as propostas positivas no programa atual da chapa 52 não podem ser assumidas, de imediato, como compromisso efetivos, pois são pastiches que restaram das tensões anteriores à divisão da gestão.

Desde os primeiros meses de gestão, Irineu intensificou sua aliança com os setores conservadores catarinenses. É certo e patente que ambas as chapas têm apoiadores e figuras de decisão de alas bolsonaristas e vinculadas ao fascismo de nosso estado, tanto dentro como fora da universidade. Isso não quer dizer que alguma das candidaturas seja abertamente fascista ou de extrema-direita por si só, como faz parecer a falaciosa campanha de Irineu, em especial no segundo turno, reduzindo o debate político. A incidência das oligarquias catarinenses na chapa 52 é forte o suficiente para que o senador Esperidião Amin tenha indicado o chefe de gabinete do reitor à revelia de qualquer diálogo em nosso fórum e mesmo com o alto escalão da reitoria, sabidamente contrários a tal figura, sendo este um dos primeiros momentos de fragilização no pós-eleição de 2022. A nomeação do chefe de gabinete, Bernardo Meyer, sobrinho-neto do ex-Reitor Ferreira Lima, foi uma das peças centrais para atravancar a mudança do nome do Campus, sabotando a Comissão de Memória e Verdade da UFSC por dentro da gestão. Meyer é umas das principais figuras da gestão Irineu, e mantém estreito conluio com os setores mais reacionários e fascistas da imprensa burguesa de nosso estado (como Moacir Pereira, Cacau Menezes etc.) e ligação umbilical com os interesses do empresariado catarinense. 

Durante a gestão atual, um dos principais embates políticos foi a mudança do nome do campus central. Incitamos qualquer apoiador de Irineu que hoje defende que a chapa 52 representa a luta contra o fascismo a apresentar uma fala ou posicionamento firme e público do candidato em defesa da alteração do nome do campus durante o processo – não o vimos. Para além do silêncio críptico e das manobras no CUn que surpreenderam mesmo os membros da gestão, o reitor abriu espaço para os advogados da família do antigo homenageado apresentarem um parecer alternativo no CUn, atropelando completamente o devido processo. O silêncio e a conivência combinam com um reitor que aceitou receber a medalha João David Ferreira Lima da Câmara Municipal, por seu prestígio acadêmico, mas que, em disputa também acerca do que significa o reconhecimento de Ferreira Lima, nunca se posicionou.

Os erros e falhas de princípio não se encerram neste episódio, no entanto. Nestes quatro anos, o reitor preferiu a conivência e o silêncio com os poderes locais e estaduais (Topázio e Jorginho Mello), mesmo quando estes trataram de questões do interesse da instituição, como foi sua omissão frente às posturas discriminatórias e preconceituosas da FAPESC, fundação que virou um verdadeiro instrumento de censura e coerção contra pesquisadores, impedindo a distribuição de bolsas para aqueles que estudam qualquer tema que não se enquadre na agenda de valorização do capital – em especial aqueles que resistem e respondem à pressão do bloco dominante de poder. O enfrentamento às agressões destas figuras e de suas bases à UFSC e ao conjunto da sua comunidade, sobretudo ao movimento estudantil, raras vezes encontrou no reitor respaldo e altivez; a regra foi a falta de posicionamento firme e em defesa da luta do povo e sua autonomia de organização e na ocupação dos espaços públicos.

A gestão demonstrou sua estreiteza na medida em que orientou toda a comunicação institucional ao seu projeto pessoal de poder em primeiro plano, ao invés de priorizar a informação para a sociedade do que a Universidade produz. Esse mesmo projeto estabelece relações clientelistas com TAEs e estudantes, pautando conquistas que deveriam ser institucionais e perenes em relações de lealdade e fidelidade pessoais e paternalistas – práticas que aviltam a democracia universitária. 

Por fim, este personalismo antidemocrático lega à universidade toda a sua morosidade; cria uma gestão que centraliza tudo e demora para tomar decisões, mesmo as mais simples e óbvias, e que atende às necessidades somente daqueles que o bajulam ou participam de suas reuniões exclusivas, organizadas em cafezinhos com o reitor após o expediente ao final da semana – em detrimento da ampla maioria da comunidade ou de seus apoiadores.

Do outro lado deste segundo turno, a chapa 41 foi constituída por uma aliança complexa entre os setores entreguistas e privatistas, parte fundamental da maçonaria tradicional, com uma visão tecnocrática e meritocrática da universidade. Apesar do professor Amir e da professora Felipa surgirem como figuras desconhecidas e de pouca inserção política, a chapa carrega o legado de uma UFSC historicamente dirigida pela maçonaria e pelos setores mais servis e úteis às classes dominantes, em sua face conservadora que reproduz na universidade o projeto das grandes oligarquias catarinenses. O apoio de todos esses ex-reitores (e suas famílias) herdado pela chapa Amir-Felipa revela seu atrelamento a esse ideal de universidade. Também sustentando esse grupo político, estão: os setores que priorizam um projeto tecnicista de universidade, visando a uma suposta excelência acadêmica-científica permeada por interesses empresariais e elitistas;  figuras marcadas da realidade da UFSC, como Bebeto e Fábio Lopes, responsáveis pelas posições mais anti-povo que vivenciamos no período recente, inclusive flagrados em jantares da alta cúpula do poder estadual combatendo a alteração do nome do campus; e o grupo “Direita UFSC”, que vem fazendo jus ao seu caráter fascista ao defender a desmoralização da universidade pública, a retirada de direitos (principalmente estudantis), ao mesmo tempo que persegue e visa exterminar a atuação do Movimento Estudantil e de quem luta na nossa universidade e sociedade. 

Mais do que apoios, a Chapa 41 carrega explicitamente em seu programa e ala diretiva do grupo o que entendemos como processo de refuncionalização da universidade. Diante de um momento de crise estrutural do capital, o interesse da burguesia não é meramente desmontar a universidade pública, mas sim fazê-la funcionar ainda mais para a manutenção da ordem, para a renovação do capitalismo. A lógica perversa funciona mais ou menos dessa forma: frente a uma situação orçamentária devastadora, a resposta é buscar investimento privado, permitindo que o grande capital dite o ensino, a pesquisa e a extensão, e também se utilize da estrutura, da força de trabalho, do capital intelectual, dos próprios estudantes, para benefício próprio. Esse projeto vem avançando na UFSC (inclusive já dentro da gestão de Irineu, com suas escolhas para cargos e anuência ou falta de combate a projetos e políticas nesse sentido) também nas defesas de que a inovação e o empreendedorismo penetrem no tripé universitário, em compasso ao interesse burguês de adaptar as universidades a um mundo de trabalho cada vez mais precarizado. É esse o projeto que vemos com clareza na política da Chapa 41. Falar em ampliação de fomento econômico-financeiro aos nossos projetos de pesquisa e extensão sem defender a exclusividade de verba pública é ampliar a inserção do Capital na universidade. Falar em fortalecer a integração entre a UFSC e as fundações de apoio, é aprofundar um problema que já vivemos há anos. Defender o apoio institucional às equipes de competição e empresas juniores é colocar os nossos estudantes a serviço do empresariado e a estrutura da universidade em auxílio da acumulação privada de riqueza. 

Sabemos que há pessoas honestas, progressistas e democráticas apoiando e construindo as candidaturas que hoje disputarão o segundo turno das eleições. Não obstante, temos plena convicção que sua capacidade de incidência e de decisão na política de ambas as chapas será praticamente inexistente: independente de ocuparem postos relevantes de coordenação ou serem a massa de trabalho e campanha até então. Nós também cumprimos essa função em 2022, e vimos nossas contribuições serem escanteadas na sequência. Qualquer ilusão de uma democracia tecnocrática de coalizão com Amir, ou de uma geringonça clientelista de esquerda com Irineu, é um erro. A aposta em compor com estes setores antidemocráticos em detrimento de encarar o verdadeiro desafio de reorganização da esquerda tem enfraquecido a universidade e fragmentado os/as que lutam dentro da instituição. Tal é a nossa presente tarefa: reconhecer que é preciso reconstruir uma unidade verdadeira entre os setores que lutam e que identificam, com clareza, os inimigos do povo dentro e fora da universidade, construir bases comuns e ampliar uma inserção mais capilarizada, que vá desde as bases dos cursos até a ocupação dos fóruns e órgãos colegiados da universidade. Trata-se de ir além da indispensável luta aberta cotidiana, em movimento, mas projetar a ação além dos limites da institucionalidade.

Construímos a candidatura Conhecer é Transformar coletivamente no Fórum UFSC 2030. Esta candidatura não foi o resultado de conchavos ou promessas de troca de favores e cargos, ela se construiu a partir da aprovação pública de um programa e de propostas amplamente divulgadas durante o curto período eleitoral determinado pela COMELEUFSC – comissão que em grande medida favoreceu os interesses da candidatura oficial e que, apesar de nossas solicitações sob distintas formas, não estendeu o prazo da campanha, limitado a 16 dias úteis do calendário acadêmico. 

Neste curto espaço de tempo, o esforço intenso da nossa militância e da chapa 63 viabilizou um excelente resultado eleitoral, além de uma exemplar atuação em defesa da democracia, no cotidiano do processo e amplamente no absurdo caso ocorrido com votantes de Blumenau. Não fosse o intransigente esforço de nossa chapa, a COMELEUFSC (em disputa interna) e a chapa 52 não teriam recuado de sua postura antidemocrática, contrária a garantir o direito de voto dos estudantes de Blumenau. Não é demais lembrar que esses foram prejudicados pela possível fraude eleitoral já reportada à COMELEUFSC e até agora sem resposta. Mais uma vez, fica demonstrado como não são os comunistas que dependem das estruturas democráticas do movimento, mas bem o contrário: é a democracia que necessita do esforço perene e militante dos comunistas.

Ademais, também destacamos: ao invés de guardar as urnas e aguardar a resolução do grave problema de Blumenau para a contabilização, esperando a votação dos estudantes excluídos, ambas as chapas que disputam o segundo turno optaram pela contagem imediata no dia 01/04, atacando direitos básicos de isonomia e paridade de armas na eleição, colocando seus interesses eleitoreiros acima da condução minimamente mais justa do processo (embora já contaminada). 

Encaramos este segundo turno como um desafio significativo. Não concordamos com as leituras que simplificam o debate em considerar o grupo de Irineu e Moretti como representantes da esquerda e o grupo de Amir e Felipa como da extrema-direita vinculada ao fascismo. O grau de permeabilidade e direção das classes dominantes em ambas as chapas é tamanho que nos conduziu à posição de anularmos o voto neste segundo turno. Esta não é uma escolha leviana, tampouco representa uma desresponsabilização em relação à construção e à disputa da Universidade. Ao contrário, entendemos que, independentemente de qual chapa for eleita, haverá enormes disputas a serem travadas. Por isso, é fundamental que nos organizemos para ocupar os espaços institucionais, as entidades representativas e construir um movimento universitário mais forte para defender e lutar por uma Universidade comprometida com as necessidades do povo brasileiro.

Na verdade, ambas as chapas finalistas são o que restou das duas chapas que concorreram em 2022 contra a então “Universidade Presente”, que ajudamos a construir. Agora parte da chapa Cátia-Moretti se juntou a Irineu, incluindo seu vice, e com apoio de setores da maçonaria. Os apoiadores da EBSERH se confundem com seus críticos na chapa 52. A chapa De Pieri-Marcela se uniu a setores do que foi a chapa da Cátia. A direção política profunda das chapas não reside nas figuras de esquerda que as constroem, e o relevante peso direto das figuras que concorrem aos dois cargos máximos da reitoria não são de figuras avançadas e devidamente comprometidas com a luta do povo. Não se trata de um segundo turno entre uma chapa “fascista” ou de ultra-direita contra uma de centro-esquerda, que poderia nos levar a apoiar esta última mesmo com sérias dificuldades éticas e de competência, mas sim de duas concorrentes ideologicamente muito parecidas em seu núcleo duro, e com práticas e princípios antidemocráticos e oportunistas de distintos matizes – inclusive nas bases de suas campanhas –, das quais nos diferenciamos e vemos profunda limitação e recuo, comprometendo princípios básicos da defesa da luta popular, da construção democrática e do enfrentamento ao fascismo. 

O voto é uma expressão política. Durante muito tempo, se consolidou no Brasil a lógica do “voto útil”, que marginaliza projetos e grupos emergentes. No entanto, uma forma legítima de expressão política é também a recusa a escolher as alternativas postas. Estamos de pleno acordo com os encaminhamentos da plenária da chapa Conhecer é Transformar (63), ocorrida no dia 13 de abril de 2026, que “deliberou por não manifestar apoio a nenhuma das chapas que disputam o segundo turno para as eleições da Reitoria. Por propostas e práticas, as chapas finalistas não representam pontos centrais do programa da chapa 63”

Há gente justa nos interpelando sobre nossa posição, entre aberturas de diálogo franco e busca por orientação, ou mesmo cobranças simplórias e desesperadas – estas, que evidenciam a lacuna de compreensão (ou a capitulação ao oportunismo e à mascaração intencional de outros setores) sobre a profundidade dos problemas também infiltrados na composição de Irineu e Moretti; que relevam e contornam a força efetiva que a direita vem ganhando país afora e dentro da universidade nos últimos tempos, sobretudo por sua própria ação nefasta, mas tendo espaço também (e em muito) sob escolhas e omissões de Irineu, tal qual sob falta de compromisso desses mesmos setores de esquerda em construir uma luta unitária avançada. 

Essas ações e acusações no segundo turno, tentando nos imputar a responsabilidade por qualquer resultado desastroso, põem de lado dois elementos centrais: um, referente à nossa intervenção histórica e a todo o intenso trabalho de direção, fortalecimento programático, construção mediada e avanço sobretudo na disputa aberta pela universidade – como nas centenas de passagens em sala que nossa militância dirigiu e na participação na campanha virtual –; outro, referente ao que significou a própria campanha da chapa 52 e a omissão de tantos outros setores até então.

Quanto ao primeiro, não só elevamos o debate de campanha, como tomamos compromisso fundamental no enfrentamento aberto ao fascismo. Nos centramos em trabalhar e apresentar um projeto de transformação  comprometido com o povo; disputar as pessoas para a luta por seu pertencimento na universidade – tanto é que esse debate de projeto sempre antecedeu o de nomes, internamente ao fórum e nas ações de campanha que fizemos, apresentando os anseios e as razões políticas coletivas para além das experiências individuais de quem sofreu dos problemas com a gestão passada. 

Não compramos embate aberto tratando Irineu como nosso inimigo – inclusive apontando com destaque na campanha de massas, em cada sala de aula, como não se tratava disso. Em compasso, apontamos com firmeza que a direita, as forças fascistas, que o eram. Se talvez isso pudesse ter tido ainda mais ênfase em nossa chapa, no conjunto do fórum – já construído sob muitas mediações –, em toda nossa campanha aberta como PCLCP e JCA isso nunca foi residual, não cabendo qualquer difamação ou dissimulação sobre o que empenhamos de campanha. Por isso, reafirmamos que é preciso coerência e responsabilidade com o futuro por parte daqueles que então nos cobram disso para não contribuir ainda mais para o simplismo político e a fragilização da esquerda na universidade.

Quanto ao segundo elemento, o fato é que pouco houve de compromisso e prática militante pelos setores então adversários na eleição, ou mesmo aqueles externos à campanha via candidaturas, em vigor de denúncia e mobilização contra o fascismo, ou mesmo de avanço de organização e programa para a UFSC. Fora defesas genéricas de algumas conquistas recentes e um discurso sobre permanência que não se sustenta na realidade de deterioração das condições de estudo, trabalho e convívio na universidade, mesmo no segundo turno, polarizaram e criaram um espantalho, muitas vezes com fake news (como já feito inclusive sobre nossa militância no primeiro turno), e sequer qualificaram o que é a expressão fascista na chapa 41 – salvo uma ou outra nota nos momentos finalíssimos pré-segundo turno. Em compasso, no caso daqueles pertencentes à campanha de Irineu e Moretti, sequer fizeram autocrítica e enfrentamento quanto a quem integra sua própria chapa, as posições e vínculos que carregam, e também as práticas que apresentam – inclusive as recorrentes tentativas de constrangimento de militantes no dia de votação, por estudantes ou docentes, querendo desautorizar e assediar lideranças da universidade e que atuavam como delegadas da eleição.

Junto disso, muitos dos que hoje nos acusam de neutralidade é que tomaram tal rumo ao longo do último período. Não só se furtaram da construção de projeto unitário nos espaços coletivos da universidade e mesmo da declaração aberta de voto no primeiro turno, como não organizaram militância e disputa da universidade contra o fascismo para além de bravatas em redes sociais ou conversas de corredor. Entre simplificações ao taxar Amir e Felipa como fascistas, como visto de distintos setores, ou ainda lacuna de debates, envolvimento da comunidade, ampliação da participação na disputa da universidade, não vimos de grande parte dos demais grupos organizados ou de lideranças das distintas categorias uma ação consequente e expressiva na luta contra os interesses das classes dominantes – para além do que lhes toca mais diretamente. Poucas foram as entidades a mobilizar atividades com esse afinco, das bases às gerais, e, para além delas, poucas foram as ações militantes de disputa por um projeto a favor de nosso povo – e em maioria sem forte expressão. Repudiamos, portanto, todos os setores que não moveram qualquer esforço militante ou disputa política até as vésperas do segundo turno e por qualquer oportunismo têm tentado constranger aqueles que não se rendem ao apoio do clientelismo de Irineu “contra a ameaça fascista”. Tomar uma postura como essa para tentar imputar críticas e responsabilizações a nós nada mais expressa do que o comodismo e a simplicidade desses setores num apontar de dedos irresponsável, que mais contribui para divisionismos e desgastes entre os/as lutadores/as de nossa comunidade. 

Estamos seguros de que a ameaça fascista estará posta permeando qualquer gestão eleita, e soluções fáceis não existem em nosso cenário. Nossas divergências quanto a um voto não nos desobrigam e tampouco retiram da luta que é necessária de seguirmos fazendo em denúncia ao projeto das classes dominantes e a seus representantes por toda a universidade. É preciso avançar nas discussões programáticas, no trabalho político e de articulação nos órgãos deliberativos, na disputa das entidades e na construção de alternativas reais em uma perspectiva proletário-popular para a universidade, de forma a defender e transformar a UFSC em uma trincheira pela libertação e soberania de nosso povo. 

Os confrontos que se avizinham com as demais eleições na universidade, bem como estaduais e nacionais, agudizam desafios já expressos no cotidiano de disputa social e colocam tarefas importantes às camadas consequentes e comprometidas com o povo, com a transformação da realidade pelo fim da exploração e da opressão. É nosso dever coletivo superar tamanha fragmentação dos setores comprometidos com a luta proletária-popular e nutrir experiências de unidade que aprofundem a qualidade política do debate, a disputa de consciência e a organização comunitária, apostando não só na oposição a qualquer desmando das elites que se aprofunde no próximo cenário da reitoria e do movimento universitário, mas elaborando política e empenhando dedicação militante para um projeto próprio, emancipatório, que precisa se articular nas mais distintas instâncias do movimento. É nesse sentido que apontamos e convocamos a comunidade de lutadores/as para a disputa e construção das entidades, dos coletivos, do Fórum UFSC 2030 e das lutas todas em nossa instituição e nos territórios em que se faz presente, sob a força e a esperança de quem acredita e fará acontecer uma universidade verdadeiramente do povo, pelo povo e para o povo.

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