Viva Gregório Bezerra!

Viva Gregório Bezerra!

No dia que Gregória faria seu de seu 126º aniversário, publicamos uma homenagem de Florestan Fernandes à Gregório Bezerra escrita para o jornal da Oposição Metalúrgica.

Gregório Bezerra cresceu, ao longo de sua vida, além e acima dos padrões humanos de integridade e grandeza da sociedade brasileira. Não cheguei a conhecê-lo, mas sempre o admirei com respeito: ele fazia parte do pequeno grupo dos que não cedem e não se vergam, sendo ele próprio a mais bela e forte irradiação do ser Povo, do transfigurar a dureza da vida em beleza humana, em ação política consciente contra a miséria e a degradação dos oprimidos. Ele era uma força telúrica e social, sempre pronto para todos os sacrifícios e todas as lutas, no combate sem tréguas para o qual arrastava, pela palavra e pelo exemplo, os deserdados da terra, incendiando mentes e corações com a chama de seu ardor revolucionário.

É parte de nossa memória histórica a coragem com que enfrentou o suplício público. Cenas brutais, embora comuns em todo o Brasil e particularmente no Nordeste da cana, com sua longa tradição de pisas e da violência que desaba de cima para baixo em função da vontade de tiranetes sanguinários, eclodiram pelas ruas de uma cidade que não merecia aquela nódoa. A consciência nacional foi ferida, mas se esclareceu: os donos do poder mostraram o que eram – a que vinham – e como iriam conduzir a República institucional em relação ao “Povo insubmisso”. Foi um verdadeiro calvário, que tocou aos cristãos e aos ateus, e colocou, acima do desmascaramento da natureza íntima do golpe de Estado, a figura exemplar do supliciado. Arrastado como um cão raivoso, Gregório Bezerra mostrou que o ser humano se suplanta na desgraça e que não há violência que possa abater um caráter firme e decidido.

Outras violências vieram depois – e muitas ainda mais brutais e assustadoras. Contudo, nenhuma se comparou a essa, pelo ódio extravasado, pelo banqueteamento público na carne e na pessoa do vencido, pela ausência de civilização no massacre da vítima indefesa. Esta, porém, não se despojou de sua dignidade humana, ferida mas não destruída e tão pouco acovardada. Posto à prova, mostrou-se à altura dos seus pares ancestrais e retirou do sofrimento a mais contundente humilhação dos carrascos: revelou a ira popular e o orgulho imbativel do ser espoliado, que derrota o inimigo voltando contra ele a vergonha da desonra, da covardia atroz e da desumanidade bestial. De Norte a Sul ficou claro que se fizera o processo de um regime e que o mártir era, por seu desassombro e capacidade de resistência civil, um herói político puro e intemporal. As circunstâncias converteram o seu sacrifício em realidade histórica, porém o que estava em jogo era o símbolo vivo perene de um povo insurgente.

Esse poderia ser o clímax de uma vida e o ponto final grandioso da trajetória de Gregório Bezerra. Em um dado momento, ele livrou uma Nação – ou a parte maior da Nação, que não se deixou corromper pelas ilusões que alimentaram e deram corpo à tirania – do complexo de culpa, do rancor contra si mesma despertado pela submissão passiva, da vergonha coletiva compartilhada por milhões de impotentes. Todavia, aquele não foi um momento ocasional, um acidente pessoal e histórico, o ápice de uma vida devotada aos outros e à redenção dos oprimidos. Era o próprio medo de ser um homem que não se via como herói e repetiria, se fosse preciso, mil ou cem mil vezes como aquele (ou ainda maiores). Os limites de sua natureza humana transcendem ao episódio e, se houve engrandecimento, este sim constituia um produto acidental da história. A medida do homem do povo marcava os ritmos pessoais de Gregório Bezerra e estabelecia um estarrecedor contraste com os “donos do poder”, vaticinando que em sua luta contra o Brasil a República institucional nascia condenada ao malogro.

Os aspectos que desnudam essa particular grandeza humana se tornaram bem conhecidos graças à publicação das Memórias de Gregório Bezerra (editadas em dois volumes, em 1979 e 1980, pela Civilização Brasileira). Não vem ao caso varar as páginas dessa linda lição de vida, repetir o que a crítica já ressaltou. Mas não iria mal evocar pelos menos dois tópicos das Memórias. Um deles afeta a infância e a mocidade de Gregório Bezerra. Como ele se solta do chão nativo e amadurece. O calibre de suas ilusões e aspirações. Um sólido rebento popular, uma longa e obstinada vocação para vencer a pobreza, a exclusão e a marginalização, mantendo em toda a plenitude a impulsão do ser gente na órbita histórica do mundo do Povo. São límpidas e belas as páginas em que podemos acompanhar a gradual projeção humana de Gregório Bezerra a partir do arcabouço do existir comunitário primordial, do qual nunca se desprende conteúdos da razão; converteu-se no homem do Povo que saiu de um ambiente intelectual estreito, mas que sustentou sua identidade originária com orgulho dela e retirou a sua força psicológica criadora e rebelde. Por isso, mais tarde, principalmente nas duras tentativas de combater a última (ou mais recente) ditadura, ele não fala para o Povo – é o Povo que fala pela sua voz. Daí a facilidade com que aparentemente era “seguido”. Ele extraía da substância do seu ser o que todos queriam e exprimia o querer comum com as palavras políticas que os outros não sabiam dizer (ou apenas conheciam por intuição, mais ou menos parcial e obscuramente).

O outro tópico diz respeito ao significado desse homem para a esquerda brasileira, que sempre usou uma telegrafia estranha para se isolar da massa popular. Por sua própria natureza íntima, Gregório Bezerra não era domesticado nem domesticável. O seu senso de disciplina obrigava-o a palmilhar humildemente certos caminhos que ele reprovava ou, pelo menos, com os quais não poderia ser conforme sem mutilações. Militante firme, exemplar, que dava de si tudo que tinha, no entanto ele era o contraste natural e incisivo de qualquer modalidade de comunismo enlatado.

Referindo-se a 1947, por exemplo, Gregório Bezerra afirma: “Essa posição, a meu ver, apesar dos grandes movimento de massa que realizamos, em vários pleitos eleitorais, e das vitórias que obtivemos, nos isolou um pouco dos setores mais radicais das massas populares. Tanto é verdade que, em alguns casos, os operários não suportando mais os baixos salários, passavam por cima da orientação do partido e deflagravam greves”. “Quando os operários entravam em greve, o partido que antes tinha lhes desaconselhado dessa forma extrema de luta, dava-lhes apoio, fazendo autocrítica na prática (e o proletariado reconhecia que o partido não o tinha abandonado). Mas o fato é que a orientação geral do partido, naquele momento, levou-o a se atrasar em relação à luta dos setores mais radicais da classe trabalhadora”. “A meu ver, tínhamos cedido demais, em busca de uma união nacional que não conseguíamos fazer e, em consequência disso, nos isolamos bastante das massas sofridas, em virtude da nossa posição reboquista em relação à burguesia.”(Memórias, vol. 2 p.57). A sua integridade e objetividade qualificam também o diagnóstico referente à contra-revolução em 1964. “A meu ver, confiamos demasiado no dispositivo militar dos nossos aliados e subestimamos o dispositivo de nossos inimigos. Estávamos com a cabeça cheia de êxitos parciais. O nosso partido não estava preparado para a luta armada e, em consequência, não preparou a classe operária e as massas trabalhadoras para enfrentar o golpe. Outro fator de nossa fraqueza era a nociva falta de unidade entre as forças de esquerda. Os golpistas souberam aproveitar-se de todas essas debilidades e alcançaram uma vitória tranquila”. (idem, p. 189). Outras páginas, a seguir, indicavam a potencialidade explosiva com que entrara em contato, numa peregrinação revolucionária que desmente a propalada “tradição de subserviência” e de “incapacidade política” das massas trabalhadoras rurais. Não é o oprimido que está longe do modelo revolucionário. É este modelo que não se configura como realidade histórica, à revelia das massas trabalhadoras.

Eis aí a figura enorme desse homem que morreu sem receber os tributos que merecia pelos serviços que prestou às classes trabalhadoras brasileiras, às causas do Partido Comunista e da defesa da revolução democrática no Brasil. Os jornais dedicaram páginas inteiras a Raymond Aron, comprovando mais uma vez até que ponto nos comprazemos com uma situação neocolonial na esfera da cultura. Aron era um grande do pensamento europeu – mas seria tão grande para nós? Ou pareceria Gregório Bezerra o anti-heroi nacional para uma consciência burguesa conservadora, culpada e farisaica? Ora, pense-se o que se quiser, ele representa e exemplifica a emergência do Povo na história. O Brasil nunca poderia ser mais o mesmo depois dos episódios que degradam a ditadura ao ponto mais infame e mais baixo e, ao mesmo tempo, desmistificar as falsidades e as ambiguidades das nossas “elites esclarecidas” e da nossa propalada “tradição cristã”. Como diriam os católicos militantes mais ponderados: a sua vida é toda ela um testemunho de rebelião criadora, de afã ou de ansiedade de auto-aperfeiçoamento e de identificação profunda com a democracia igualitária. Ele é o elo que nos faltava conferir ao movimento socialista revolucionário uma sólida base na terra firme e o verdadeiro encravamento no âmago da consciência popular.

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