Contra a ofensiva imperialista na América Latina: os povos do mundo às ruas em defesa da Venezuela!
Nota da JCA em solidariedade à resistência bolivariana e repúdio à agressão estadunidense
Enquanto novas informações surgem sobre o ataque estadunidense a Caracas no sábado, 03 de janeiro de 2026, é preciso desde já marcar uma posição: a Venezuela acaba de ser agredida de maneira criminosa. Em uma situação como essa, a guerra colonial não se trava apenas no campo militar, mas também no terreno político, ideológico, psicológico, informacional e econômico. As operações de desinformação buscam confundir, difamar e diluir a realidade, sendo necessário prudência na análise dos fatos.
Essa prudência não pode, em hipótese nenhuma, servir como pretexto para neutralidade política ou indiferença. A neutralidade ou a vacilação diante de uma agressão imperialista não representa uma posição de equilíbrio, mas sim uma tomada de posição em favor do agressor. A despeito de todas as diferenças que possam existir frente ao governo bolivariano, é tarefa de todos os democratas, revolucionários e partidários da luta anticolonial defender a Venezuela, seu governo e seu povo contra a agressão ianque.
A agressão militar ocorrida neste final de semana não é um fato isolado ou uma ação intempestiva da administração de Donald Trump. Trump não é um “louco que rasga o direito internacional”. O ataque desta madrugada é mais um capítulo da dramática história da América Latina: um longo caminho de ingerências coloniais e imperialistas, marcado nas últimas décadas pela permanente presença norte-americana, através de intervenções militares, golpes, intenso esforço cultural, sabotagens e sanções criminosas, sempre com o objetivo de desestabilizar a região e trazê-la de forma subordinada à sua hoste de destruição e miséria. A Venezuela não foge a essa regra – pelo contrário, é um capítulo decisivo desta tragédia.
Não por acaso, a própria Casa Branca revela em seu discurso a natureza colonial desta agressão. Os EUA, que se declaram “bastião da democracia do mundo”, afirmam que o ataque teria como justificativa o combate ao narcotráfico na região. No entanto, em entrevista realizada na tarde de sábado, dia 3 de janeiro, no Salão Oval, o governo estadunidense já admite que pretende governar a Venezuela até que se atinja uma suposta situação de “normalidade”, além de reivindicar o controle direto do petróleo e gás do país. Trata-se de uma nítida confissão de controle imperial que desmonta qualquer narrativa de luta por “direitos humanos”, democracia ou combate ao narcotráfico e expõe o verdadeiro objetivo da invasão: o controle absoluto das riquezas e do futuro de uma nação.
Faz-se necessária uma resposta contundente de todos os povos do mundo e em especial dos de nossa região contra o ataque orquestrado pelos norte-americanos! No entanto, as reações não têm respondido à gravidade dos fatos. A União Europeia pede timidamente por moderação e respeito ao direito internacional através dos princípios da carta da ONU, enquanto declara o governo Maduro ilegítimo. Enquanto isso, o atual presidente da Argentina e representante dos interesses de Trump na América Latina, Javier Milei, comemora os ataques de forma escrachada.
Cuba teve uma resposta enfática e classificou o ataque como “terrorismo de Estado”, exigindo resposta imediata da comunidade internacional. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, repudiou o ataque e pediu a convocação imediata de uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização dos Estados Americanos (OEA), e Claudia Sheinbaum, presidente do México, pediu a atuação imediata da ONU para a construção de uma solução pacífica. Entretanto, até o momento, as nações seguem sem reações que afetem de maneira mais profunda os EUA, como cortes de relações diplomáticas e/ou econômicas.
Diante de tal agressão, não podemos ter meias palavras: a Venezuela tem o direito de usar todos os meios disponíveis para se defender. Se sua soberania não é respeitada pelo Direito Internacional, que seja respeitada pela força das armas. Não se trata aqui de escalar tensões, mas de responder a uma agressão concreta de uma força estrangeira que, há décadas, trata nosso continente como seu quintal; de defender o povo venezuelano e suas riquezas de ameaça direta e violenta.
Por seu tamanho continental e peso para a América Latina, o Brasil carrega grande responsabilidade sobre os assuntos regionais. Assim, não há espaço para um governo eleito pelos movimentos populares titubear, se esgueirar e acovardar perante a ingerência estadunidense. O governo brasileiro vem contribuindo para o isolamento político e diplomático da Venezuela, alinhando-se de forma aberta ou por vezes velada à política externa de Washington. Ao não reconhecer a eleição do presidente Nicolás Maduro, democraticamente eleito, ao vetar a entrada da Venezuela nos BRICS e reiteradamente fazer acenos aos interesses do Império no país bolivariano, o Brasil lavou suas mãos, e nesse sentido ajudou a criar as condições para que as agressões de hoje se tornassem realidade. Se engana Lula, e se engana o PT, se pensa que é possível adoçar a fera do fascismo; se enganam os que pensam que bastam as posições mais apassivadas e que não confrontem a superpotência para sanar o voo de rapina do imperialismo. Não: no contexto de crise estrutural do domínio do capital financeiro, mesmo as mais recuadas posições reformistas são uma afronta à sanha centralizadora e acumuladora do capital monopolista, que usurpa do povo suas melhores energias, condições de vida digna, suas riquezas naturais e até o seu próprio território.
Esse tipo de isolamento é perverso – não apenas por partir de um governo que se reivindica de esquerda, vizinho e historicamente aliado no continente, mas também porque fragiliza a legitimidade do Estado venezuelano diante da comunidade internacional. Ao adotar essa postura, o Brasil abdica de qualquer liderança regional, contradizendo o que o próprio governo prega como um de seus interesses.
O governo Lula não pode se esconder atrás dos discursos mornos do Itamaraty, que clamam por “diálogo” enquanto se recusam a nomear os verdadeiros agressores! “Atacar países é o primeiro passo para um mundo de violência”, disse o presidente Lula em nota oficial, mas omite a principal questão: quem atacou e por quais motivos atacou. Ao despolitizar e omitir o sentido do conflito, nosso governo está ajudando a ocultar a verdade do processo histórico em curso, e abre mão de seu protagonismo em defesa da soberania e do combate ao imperialismo em nosso continente.
É preciso denunciar em alto e bom som quem deslocou dezenas de navios de guerra para o Caribe e matou civis em ataques “preventivos”; nomear quem está matando sob falsos pretextos para derrubar um regime soberano e parasitar os recursos naturais de Nuestra América! A diplomacia apática e meramente declaratória não ajuda a Venezuela, não unifica o continente e não contribui em nada para conter a agressão. Basta comparar a atual atuação do presidente com sua liderança no processo de derrota da ALCA em 2005, aquele de quando o Brasil exercia uma política externa soberana, de unidade latino americana, solidariedade e enfrentamento coletivo ao imperialismo, ao lado, inclusive, da própria Venezuela.
É evidente que o governo de hoje enfrenta desafios e realidades muito diferentes que o mandato de Lula de 20 anos atrás. Vivemos uma correlação de forças totalmente desfavorável, marcada por uma severa disputa interna sobre os rumos da economia e por uma recidiva fascistizante muito mais violenta em meio à crise estrutural do capital.
Entretanto, tal situação não pode servir como um álibi para a capitulação. É justamente nos momentos de crise e de ofensiva imperialista que se atesta o compromisso de um governo com a soberania nacional e a solidariedade entre os povos. Uma política externa que se resume a declarações genéricas, evita nomear o agressor e se subordina às orientações de Washington não contribui para “pacificar” o país. Pelo contrário, reforça a dependência, enfraquece a integração regional e a longo prazo se torna a próxima vítima do imperialismo.
É preciso ter clareza de que este ataque representa mais uma investida da face mais bárbara do fascismo, que não irá titubear em aplicar toda a força necessária para a garantia dos seus interesses diante do agravamento da crise estrutural do capital e da necessidade de garantir a manutenção de grandes taxas de lucro.
Ao longo da história, o império do terror dos EUA encabeçou guerras, conflitos e agressões a nações soberanas em todo o mundo buscando explorar seus recursos, promovendo articulações anti povo em todos os continentes. As guerras no Oriente Médio e as Ditaduras Militares financiadas em toda a América Latina são apenas alguns desses exemplos. Em cada um dos países em que os EUA colocou suas garras, deixou um rastro de morte e destruição, com milhares de mortos e recursos expropriados. O exemplo flagrante que temos é do apoio e financiamento do genocídio do povo palestino por Israel, intensificando o envio de armas e recursos.
Neste cenário, o papel dos setores democráticos, progressistas e revolucionários é mobilizar o povo brasileiro em defesa da soberania venezuelana, da autodeterminação de todos os povos da América Latina, pela retirada total das tropas e retorno ao poder do seu chefe de Estado. No entanto, essa tarefa encontra desafios concretos. O primeiro deles é o profundo desconhecimento da nossa população sobre a realidade venezuelana e o próprio histórico de ingerência dos norte-americanos na região. Durante décadas, a mídia burguesa editou uma narrativa que colocava a Venezuela como um “estado falido” , uma “ditadura” de esquerda e geradora de refugiados, buscando mascarar o papel das sanções, o bloqueio econômico, o atraso da dependência ou até mesmo as conquistas do povo mesmo sob pesado cerco.
A mídia não é neutra: ela filtra elementos e produz as notícias de acordo com o interesse do capital. Esse mecanismo prepara terreno para a indiferença e a apatia sobre o povo venezuelano e os desafios que compartilhamos com o país hermano diante das investidas imperialistas. Não é incomum escutar pessoas – até mesmo da esquerda – relativizando a agressão dos EUA frente à suposta ilegitimidade do governo de Maduro. Não podemos tolerar a aceitação passiva de uma agressão imperialista, construída através do insistente e permanente trabalho de propaganda das classes dominantes mundiais contra um povo que decidiu lutar por sua soberania e por um caminho de libertação.
É justamente aí que reside a tarefa central. Não basta denunciar a intervenção: é necessário organizar o povo ao redor da solidariedade internacional, da luta pela soberania e liberdade dos povos que vivem há tempos sob a sombra do imperialismo – como também é o nosso caso! Cabe aos revolucionários romper com o cerco informacional, politizar o debate e resgatar o histórico de lutas anti-imperialistas do continente, ligando as agressões de hoje às mesmas forças que atacam os direitos, os salários e a soberania dos brasileiros. Mobilizar o povo significa explicar com paciência que essa guerra não é um problema distante, mas sim parte da mesma ofensiva que nos impõe uma política de austeridade, saqueia nossas riquezas e mina todo e qualquer projeto minimamente soberano. Defender a Venezuela, hoje, é defender o futuro do povo brasileiro!
Frente a essa ofensiva, exige-se que todas as organizações populares nacionais, do continente e do mundo se coloquem de maneira ativa na defesa da soberania venezuelana. Não se trata de uma solidariedade abstrata, mas de uma ação concreta: pressionando seus respectivos governos e mobilizando as massas para reagir política e economicamente contra os EUA pela retirada de tropas e fim do sequestro de Nicolás Maduro.
No plano nacional, é indispensável organizar a massa do povo em defesa da soberania e da liberdade latino americana, bem como constranger o governo Lula para que abandone de vez a diplomacia da conivência com as agressões imperialistas. Basta de notas genéricas ou apelos abstratos de “diálogo”! É necessário posição firme, incluindo medidas concretas de defesa coletiva e segurança regional, assim como a defesa explícita da libertação do chefe do Estado venezuelano e do respeito à soberania deste país.
Hoje, mais do que nunca, a defesa da soberania da República Bolivariana da Venezuela significa a defesa da soberania e autodeterminação de todos os povos do mundo. Convocamos toda a juventude para as ruas nos dias 05 e 08 de janeiro, e sempre que preciso, para combater o imperialismo – seja no que tange à sua face fascista interna ou àqueles Estados nacionais que seguem agredindo a soberania de nosso continente!